segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Chacal e a nova linguagem da poesia brasileira


Em 2007, a editora brasileira Cosac Naify lançou uma reunião com a produção do poeta Chacal. O volume contém as obras editadas de 1971 a 2002, além do inédito Belvedere, com uma série de novos poemas. O conjunto mostra a força e a originalidade desse autor que está no centro da transformação da poesia brasileira do final do século XX até os nossos dias.
Chacal, Ricardo Carvalho Duarte, nasceu no Rio de Janeiro, em 1951. Aos vinte anos, lançou Muito prazer, Ricardo. Em seguida, O preço da passagem e América. Os três livros foram produções independentes, com tiragens pequenas, distribuídas de mão em mão nos bares, portas de cinema e teatros. Em 1975, lançou a narrativa em versos Quampérios pelo grupo Nuvem Cigana, uma produtora de eventos e inventos que uniu escritores, artistas plásticos, músicos, atores e pirados em geral. Em 1979, colocou na rua, novamente de forma independente, a trilogia Olhos vermelhos, Nariz aniz e Boca Roxa. Em 1983, esses livros foram reunidos em Drops de abril, coletânea distribuída em todo o Brasil pela grande editora Brasiliense.
O impacto desse resgate foi enorme na produção dos jovens poetas do início da década de oitenta. O verso de Chacal, dialogando com as cenas rápidas, o humor, a fala telegráfica de um dos mais inventivos modernistas brasileiros, Oswald de Andrade, constrói um poema que deixa velho o que vinha se fazendo até então. A fala sem cerimônia, a gíria, o rock, a contracultura, a festa, as drogas, tudo isso que estava fora da poesia entra como sangue novo dessa nova linguagem. O poema não fica apenas nos livros (embora se sustente como poema escrito, com lances visuais pelo corte do verso no espaço, pelo artesanato sonoro, pelos neologismos, pelo prazer da palavra grafada que se revela a cada página), mas é falado em bares, shows de rock, peças de teatro, espetáculos, integrando-se às diversas artes. O poema e o poeta também são indissociáveis na voz de Chacal dizendo ao vivo seus textos. Com ele e seus colegas de geração, a “rapaziada” passou a curtir e a consumir poesia. É um poeta “na idade do rock”, como se lê num dos seus poemas.
Entretanto, todos esses atributos de época, mesmo sendo importantes, não dão conta da totalidade de Chacal. Todo grande autor que traz uma novidade para seu tempo, se sua obra perdura é porque ele tem algo que vai além e aquém da sua época. A linguagem sempre nova de seus poemas, mesmo os escritos já há mais de trinta anos, resistindo a virar redundância, mostra uma sabedoria criativa com as palavras que só possuem os que conhecem os mistérios da expressão poética. Sua visão do mundo, do ser humano, da sociedade, do poder, da sexualidade, da linguagem confere uma verticalidade ao que é dito, encontrando e tateando, mesmo no clima de festa do seu texto, camadas menos aparentes da existência.
Chacal está sempre na contramão. Tem um olhar enviesado sobre tudo. As verdades são postas em cheque, assim como a literatura, a postura de literato ou de autor, a poesia, as palavras, a edição, o livro, a vaidade. Sua origem de esportista, de garoto de praia traz um ar bom de respirar para o texto. Mas mesmo esse garoto rockeiro, hoje já com 58 anos, está com um pé na festa e outro num espaço próprio, crítico e, sobretudo, reflexivo. Enquanto afirma a vida, afirma a dúvida. Até porque a palavra vida está dentro da palavra dúvida. Como ele mesmo afirma num poema: “sempre deixei as barbas de molho”.
Em 1986, Chacal lançou Comício de tudo, também pela Brasiliense, livro de crônicas e poesias - textos inquietos e inventivos em prosa e/ou verso. Em 1994, vem Letra elétrica. Em 2002, A vida é curta pra ser pequena. Por fim, Belvedere, 2007. Lendo do fim ao princípio, como propõe a ordem dos poemas no livro, ou voltando a fita e ampliando o foco sobre a produção mais recente, fica uma certeza: sua palavra continua caminhando em cima da difícil lâmina da surpresa. Sutilezas sonoras, como achar a luz dentro do nome de Lúcifer e outros tantos lances estéticos que não vou enumerar para não estragar a aventura da sua descoberta, prezado leitor. Com vocês, um pouco da poesia de Chacal.

Poemas do livro Belvedere (Cosac Naify, São Paulo, 2007)

COMO ERA BOM

o tempo em que marx explicava o mundo
tudo era luta de classes
como era simples
o tempo em que freud explicava
que édipo tudo explicava
tudo era clarinho limpinho explicadinho
tudo era muito mais asséptico
do que quando eu nasci
hoje rodado sambado pirado
descobri que é preciso
aprender a nascer todo dia


SETE PROVAS E NENHUM CRIME

Havia a mancha de sangue no jaleco
E nenhum corpo
Havia o olhar rútilo, o rosto crispado
E nenhum motivo
Havia o cheiro impregnado no corpo
E nenhuma digital
Havia o vírus, o bilhete, a arma branca
E nenhum assassinato
Havia em vão uma confissão
E nenhum ilícito
Havia a cadeira de rodas vazia
E nenhum suspeito
Havia um gato emborcado no aquário
E peixe nenhum


LÚCIFER LÚCIFER

no princípio,.......
e o que não estava, assim ficou.

areia na ampulheta
tempo ao tempo
tempão

até que um ponto pintou
uma partícula luziu ali no nenhum nenhum
quando o escurão se ameaçava eterno
um fóton espocou

flash selvagem
cavalo vertigem
onda que estoura

- lúcifer! lúcifer! inflamai minha candeia!
cremai essa mortalha que me amortece os membros!
flambai tudo, fogaréu!

o que era ponto, esfera virou.
o que era onda se expandiu e o sol meianoiteceu.
ali onde tudo era penhasco, secura, aridez.
a luz se fez.

- lúcifer! lúcifer! erguei-vos, anjo! daí as cartas!
dai linha para que tudo em mim se movimente
e eu possa, apaziguados meus fantasmas,
me levantar em vossa luz.
lúcifer! lúcifer! imperai!



O BEIJO

todo mundo precisa de beijo
o ascensorista a vitrinista
o judoca o playboy
o zagueiro o bombeiro o hidrante

o hidrante precisa também
de cuidados água farta
analgésicos e dinheiro

todo mundo precisa de dinheiro
o maracanã o pavilhão de são cristóvão
o cristo a pedra da gávea o dois irmãos

quem não precisa de dinheiro?
todo mundo precisa de beijo


VENTO

grafar uma música
é como querer
fotografar o vento

a música existe no tempo
a grafia no espaço
o vento no vento




VIDA DE ARTISTA

sempre deixei as barbas de molho
porque barbeiro nenhum me ensinou
como manejar o fio da navalha

sempre tive a pulga atrás da orelha
porque nenhum otorrino me disse
como se fala aos ouvidos das pessoas

sou um cara grilado
um péssimo marido
nove anos de poesia
me renderam apenas
um circo de pulgas
e as barbas mais límpidas da Turquia


ALMA DE ÍNDIO

das pessoas que a gente gosta
o que dá vontade é quando se
encontra dar uma barrigada
um abraço um grande beijo.
mas a mórbida catequese se
instala na alma desse índio
sem cerimônia.


É PROIBIDO PISAR NA GRAMA

o jeito é deitar e rolar


“UM POETA NÃO SE FAZ COM VERSOS”

o poeta se faz do sabor
de se saber poeta
de não ter direito a outro ofício
de se achar de real utilidade pública
no cumprimento da sua missão sobre a terra
escrevendo tocando criando

o que pesa é não se achar louco
patético quixote inútil
como quem fala sozinho
como quem luta sozinho

o que pesa é ter que criar
não a palavra
mas a estrutura onde ela ressoe
não o versinho lindo
mas o jeitinho dele ser lido por você
não panfleto
mas o jeito de distribuir

quanto a você meu camarada
que à noite verseja pra de dia
cumprir seu dever como água parada
fica aqui uma sugestão:
- se engavete com os seus sonetos
porque muito sangue vai rolar e não
fica bem você manchar tão imaculadas páginas.


DESABUTINO

quem quer saber de um poeta na idade do rock
um cara que se cobre de pena e letras lentas
que passa sábado a noite embriagado
chorando que nem criança a solidão

quem quer saber de namoro na idade do pó
um romance romântico de cuba
cheio de dúvidas e desvarios
tal a balada de neil sedaka

quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira de um calipso neurótico
um orfeu fudido sem ficha nem ninguém para ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia

(Publicado originalmente na revisa Lamás medula, Argentina)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Um poeta e um filósofo



É muito mais difícil ter uma boa ideia e ser claro. É muito mais fácil não ter muito a dizer e fazer um texto confuso, pretensamente profundo. É o que diz o filósofo alemão Schopenhauer no seu livro A arte de escrever. Quem achou algo interessante para mostrar não vai querer ocultar. Vai usar os recursos do texto para revelar. Já quem não tem nada de muito valioso para colocar acaba usando de recursos de estilo para evitar que descubram o vazio de ideias que está base do seu discurso. É certo que há bons escritores no time dos claros e também no dos mais opacos. Não está nos recursos utilizados a qualidade. Há claros e simplórios. Há obscuros e vazios. Como também há claros e ao mesmo tempo difíceis e geniais. E obscuros que deixam entrever pontas de comunicação que valem por mil páginas. Mas a consideração do Schopenhauer lá no século XIX vale para cutucar a tendência, que ainda hoje persiste, de achar que um texto que não se entende tem alguma coisa muita profunda que ultrapassa o leitor. Pode ter, e o problema ser do leitor. Mas pode ser engodo mesmo disfarçado de grande coisa. Desde muito cedo, eu já havia percebido isso e criei uma nomenclatura para um tipo de texto que chamei de a estética do profundo. Textos construídos com recursos de linguagem que o deixavam com cara e tom de que estavam falando coisas muito importantes, mas, olhando bem, não traziam nada que se aproveitasse. Antes de tecer um julgamento apressado e onipotente, contudo, é bom saber se quem avalia tem uma boa formação como leitor, se transita bem pelo gênero do texto, se aprendeu de maneira eficiente o que é um poema, um conto, uma narrativa longa. Por outro lado, ler é se jogar dentro do texto. Aproveitamos nossos conhecimentos prévios, mas a cada leitura vamos estabelecer as relações interpretativas que o texto sugere e completar com as nossas próprias significações. Escobar Nogueira, poeta que vive em Pejuçara, interior do Rio Grande do Sul, conseguiu em seu novo livro o mais difícil: ser claro e profundo. Mas profundo de verdade, com o peso nem maior nem menor do que a vida. Não uma profundidade literária clichê. Olha este: “Éramos 4.186./Menos os jovens/que foram estudar na capital,/menos a mão-de-obra/que foi para o pólo industrial,/menos os aposentados/que foram morar no litoral,/menos os falecidos,/os fugidos,/os abduzidos,/restamos 3.678, no total./Pejuçara ficará tão pequena/que poderemos nos contar a dedo,/que saberemos tudo da vida de todos,/que deixaremos de ser um povo/para ser uma família de novo.”. Escobar Nogueira, livro Pejuçara, editora 7 Letras. O Schopenhauer iria gostar.
(Publicado originalmente em Zero Hora)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Abaixo, a ditadura.



Acabei de chegar do show do Leo Jaime no Abbey Road. Escrevo suado e cheirando a cigarro dos outros. Uma historinha que não sabia sobre uma das músicas do Leo em parceria com o Leoni. A versão para “So lonely”, do Police, feita pela dupla de rockeiros brasileiros, era uma “homenagem” à censora da polícia federal no período da ditadura militar. Ela se chamava Solange. Seu nome, segundo contou o Leo Jaime, assinava aquele certificado que entrava antes de qualquer programa que se via na tv. Pra quem nasceu ontem, antes de entrar uma atração, vinha um certificado da censura junto com a voz do locutor dizendo “este programa foi aprovado pela Censura Federal....”. Leo e Leoni trocaram, pela sonoridade, o refrão “So lonlely” do Police por Solange. A letra soa como uma queixa de amor para uma mina cortante. “Eu tinha tanto pra dizer/Metade eu tive que esquecer/E quando eu tento escrever/Seu nome vem me interromper/Eu tento me esparramar/E você quer me esconder/Eu já não posso nem cantar/Meus dentes rangem por você/Solange, Solange...”. Várias canções do Leo só puderam ser gravadas depois que acabou a censura no Brasil. Inclusive canções de amor mesmo, sem nenhum duplo sentido, sem nenhum drible para contrabandear algum conteúdo político. Sabe-se lá por que foram barradas. Talvez por zelo da moral e bons costumes. Talvez por paranóia de ler algo no texto que nem em sonho o autor tenha colocado. Grande parte da produção do rock dos anos 80 no Brasil vem na esteira da liberação do discurso político. O que Chico e tantos outros tiveram que fazer num texto de esconde-esconde, dizer como quem diz outra coisa, o rock 80 disse abertamente. Renato Russo: “vamos cuspir o nosso lixo em cima de vocês/somos os filhos da revolução/somos burgueses sem religião/somos o futuro da nação/geração Coca-cola”. Cazuza: “meus heróis morreram de overdose/meus inimigos estão no poder/ideologia, eu quero uma pra viver”. Ultraje a Rigor: “a gente não sabemos escolher presidente/a gente não sabemos tomar conta da gente/a gente não sabemos nem escovar os dentes/tem gringo pensando que nós é indigente/inútil, a gente somos inútil”. Paralamas:”e a cidade/que tem braços abertos num cartão-postal/com os punhos fechados da vida real/lhes nega oportunidades/mostra a face escura do mal”. Os Eles:”eu conheci uma gatinha no RU/mas só que ela era da Libelu/eu não entendo nada de Trotsky/eu só queria chupar/drops”. No mesmo período, Gil troca a festa do Realce pela cacetada política: “o governador promete/mas o sistema diz não/os lucros são muito grandes/mas ninguém quer abrir mão/mesmo uma pequena parte/já seria a solução/mas a usura dessa gente/já virou um aleijão/... gente estúpida”. Caetano também coloca os “Podres Poderes” para fora: “será que nunca faremos senão confirmar/a incompetência da América católica/que sempre precisará de ridículos tiranos?”. Já Chico Buarque, depois que não era mais proibido falar de política, foi falar de amor, da velhice, da beleza do Morro Dois Irmãos, de futebol, da passagem do tempo. Agora que tinha liberdade, estava livre para falar sobre tudo.


(Publicado originalmente em Zero Hora)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Do Oiapoque até aqui


Um p, de pássaro, passeia ao longo do verso: “pousa na palma parada”. O p pousa, o p na palma, o p e a palma parados. Agora, o haicai todo: “Andorinha só/pousa na palma parada –/não é verão ainda.” Anibal Beça nos envia essas Folhas da Selva, um ótimo livro com trezentas e sessenta páginas de haicai, lá do Amazonas. Foi publicado numa bonita edição pela editora Valer, de Manaus. O haicai, poema que é visão, olhar, mas também palavra: “Sol quente na areia - /o caracol sai da casa/pra se acasalar”. Sim, para se acasalar, é preciso, paradoxalmente, sair da casa, mesmo que dentro da palavra acasalar tenha a palavra casa. Daí o ditado: quem casa quer casa. Mas Anibal mostra que para casar é preciso sair primeiro da casa, a casa dos pais quem sabe, sair da casca. É preciso sair de si, como o caracol e suas caraminholas. De repente, uma situação inusitada: “Sobe a montanha/com uma pedra na mão/e desce com ela”. A pedra pulando, brincando na mão, volta companheira da árdua viagem. Aliás, de montanha, a pedra entende. Que melhor companhia do que ela? Ou o galo que leva brisa às folhas: “Galo-da-campina -/traz no vento de suas asas/leve brisa às folhas”. Então, o haicai é mais do que palavra e olhar. É ver numa cena uma coisa interessante. Como quem aponta para um amigo e mostra, olha só: “Nas vestes rasgadas/já não espanta os pássaros -/ninho no espantalho.” E não apenas olha só, mas escuta só: “Seis horas da tarde -/sons das cigarras prolongam/os sinos do templo.” Ou ainda, sente só o cheiro: “Manhã de domingo -/cheirando mais que o café/a baunilha em flor.” E pode ainda, depois de passar pela visão, pela audição, pelo olfato, chegar ao paladar: “Goiaba madura/de polpa carnuda e rubra -/banquete de pássaros.” E até ao tato, como esse inadvertido macaco velho que meteu a mão em cumbuca: “Lição esquecida –/ mico-leão mete a mão/no ouriço da castanha.” Estar aqui e agora, com os cinco sentidos ligados e, partir daí, encontrar um sexto sentido: o haicai. Essa experiência é que faz do haicai um tipo especial de poesia. Não é uma poesia para dentro, para as idéias de quem está escrevendo. Mas uma poesia para fora, para captar o que vem de fora. Claro, filtrado e lido por quem está dentro. Isso não é também uma realização exclusiva do haicai. É possível captar instantes e realizá-los em outra forma que não a desse pequeno poema de três versos exportado pelos japoneses. É possível ainda imaginar tudo. Afinal, quem vai provar que o poema não nasceu de uma experiência? Do ponto de vista do leitor, tanto faz. Mas quem quiser se dedicar ao haicai pode encontrar no entorno instantes semi-prontos e transportá-los para o mundo das palavras. Como o fotógrafo que olha o que todo mundo vê, mas acha um ângulo que só encontramos na fotografia que ele tirou. Anibal Beça é um desses poetas-fotógrafos. E como poeta que é, fotografa para além da imagem: “Trilhos de grafite/riscando por ruas tortas-/o bonde e a minha vida”.
(Publicado originalmente em Zero Hora/Recoloco em homenagem a esse grande poeta/amigo, que nos deixou há pouco.)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Todo mundo e ninguém


Esses são os nomes de dois personagens de uma peça: Todo-mundo e Ninguém. O primeiro se apresenta dizendo que vive a buscar dinheiro. O segundo busca a consciência. Dois outros personagens em cena comentam: todo mundo busca dinheiro e ninguém busca a consciência. Todo-mundo, a seguir, diz que gosta de ser elogiado, louvado. Já Ninguém prossegue dizendo que gosta de ser repreendido quando está errado. Os outros dois comentam: todo mundo gosta de ser bajulado e ninguém quer ser repreendido. Com esse jogo de linguagem, segue a peça inteira e vai nos revelando os embaraços e valores de todos nós. O autor da peça é o português Gil Vicente. Foi escrita anteontem: em 1532. Faz parte do Auto da Lusitânia. A eternidade do texto se dá, por um lado, por falar da psicologia humana. Somos, de certa forma, os mesmos em se tratando dos sentimentos. Buscamos o prazer e não a dor. A vida e não a morte. Mas a atualidade também é estética. Está no insight de linguagem que Gil Vicente teve. Ir brincando com as expressões todo mundo e ninguém e, com isso, revelando nossos desejos que nos igualam a todo mundo e a ninguém. E ninguém, no texto dele, vale também por todo mundo. Ou seja, ninguém quer ser repreendido é o mesmo que todo mundo não quer ser repreendido. O autor consegue a façanha de encontrar o igual no seu contrário. Não é por acaso que Gil Vicente, além de dramaturgo, é poeta.


(Texto publicado originalmente em Zero Hora.)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Ser ou não ser poeta


Um príncipe tem seu pai morto. O assassino é o irmão do antigo rei. O novo soberano, além de tomar o trono, toma também a rainha, mãe do príncipe, como esposa. Ninguém sabe do assassinato, mas o fantasma do rei falecido aparece para uns soldados que avisam o príncipe. O pai morto revela ao filho os fatos e pede que vingue sua morte. Que enrascada! Como voltar ao reino e dizer: um fantasma me contou tudo! Hamlet, o príncipe, tem uma verdade que não pode ser dita. Dessa impossibilidade de dizer as coisas claramente se constrói um personagem cujas falas são sempre enviesadas. As imagens, metáforas, associações de sentido, jogos de palavras dão o tom do que ele diz. No meio da peça, a fala de Hamlet é o espaço para o poeta Shakespeare deitar e rolar. O dramaturgo inglês William Shakespeare nasceu em 1564. Poeta, encontrou também no teatro um espaço para a sua cuidadosa seleção e combinação de palavras. Hamlet, seu personagem, diz coisas aparentemente insensatas, mas que revelam a farsa do reino. Tudo é revirado pelo avesso: a vida, a morte, o amor, o poder, a linguagem. Não por acaso é desse texto que saíram algumas das mais conhecidas frases da história da literatura: “ser ou não ser, eis a questão”; “há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.”. Mas essas duas são só as que entraram para o hit parade. Tem muito mais. A tradução de Millôr Fernandes, outro poeta, recupera para nós o sabor da criatividade com a palavra do bardo inglês. Por exemplo: “O termo de nossos termos, será termos a caveira nesses termos?”. Ou: “Um homem pode pescar com o verme que comeu o rei e comer o peixe que comeu o verme (...) um rei pode fazer um belo desfile pelas tripas de um mendigo.”. Ou ainda nesse diálogo entre Hamlet e o coveiro: “-De quem é essa cova?(...)-Tua, claro. Estás todo encovado.(...)- Sua é que não é. O senhor parece preocupado, e ela é pós-ocupada.”.
(Publicado originalmente no jornal Zero Hora.)

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Rimbaud, índio velho!


Estava lendo Uma temporada no inferno, do poeta francês Rimbaud, e me saltou um bah! nos olhos e nos ouvidos. Pensei que fosse uma adaptação do tradutor, o excelente poeta Paulo Hecker Filho. Olhei para o original em francês e lá estava: “Bah! faisons toutes les grimaces imaginables”. Em português: “Bah! Façamos todas as caretas imagináveis”. Consultei minha amiga, a tradutora Rosane Pereira. Ela me esclareceu que existe o bah! em Francês. É uma expressão coloquial. Equivale mais ou menos ao argh, ou irque, ou seja, não é um bah! positivo como o nosso. É negativo. Embora o nosso também possa ser usado em situações de censura - bah!, que horror!, empregamos mais para surpresas boas – bah!, estava muito legal!. Paulo Hecker poderia ter optado por algo explicitamente negativo na tradução, mas preferiu o bah!, que, afinal, também pode ser usado nesse contexto. E o tradutor é gaúcho. Além do mais, ter um bah! no Rimbaud é uma vitória para os nossos pagos que o Hecker não deve ter querido jogar fora. Uma temporada no inferno é um texto que mistura prosa e poesia. Num só jorro: frases, imagens, versos. Foi escrito de abril a agosto de 1873. Fala de muitas coisas ao mesmo tempo: a origem do povo francês e as implicações disso na alma do poeta, religião, o sofrimento das mulheres, destino, afirmação e negação da vida, arte. Num dos capítulos, Alquimia do verbo, Rimbaud expõe suas famosas cores das vogais: A negro, E branco, I vermelho, O azul, U verde – “me vangloriava de ter inventado um verbo poético acessível, um dia, a todos os sentidos.”. Traduzir o som na imagem e vice-versa, sugerir mais do que dizer, criar atmosferas, estados de espírito com as palavras. Tudo isso é o que fica dessa geração de poetas franceses, que tem também Verlaine, Mallarmé, Baudelaire. Colocam a arte e o pensamento num espaço novo. Nem tudo é razão, nem tudo é emoção. Há o vago, terreno do sonho, das associações de sentido, solo em que mais tarde Freud iria fincar sua bandeira e dizer, se pudesse: mas bah!, isso é o tal do inconsciente!


(Publicado originalmente no jornal Zero Hora.)

domingo, 24 de maio de 2009

Uma mini-babel


Há poucos dias, uma repórter me perguntou se os poemas que circulam nos ônibus em Porto Alegre contribuíam para aproximar as pessoas da poesia. A pergunta supunha que houvesse uma distância. Respondi que, ao contrário, a poesia é tão próxima das pessoas que se encontra nos ônibus. Se fosse distante, jamais estaria ali. Nosso mundo ocidental começa lá na Grécia antiga. E o que herdamos dos gregos? A poesia e a filosofia. É através dessas duas artes que nos entendemos como seres humanos. Sem figurar, sem aprofundar, sem pensamento e linguagem não existimos. Foi quando o homem passou a falar de si mesmo e não mais dos deuses que se chegou à poesia lírica. O poeta entoando seus versos ao som de uma lira. E a platéia aplaudindo e pedindo bis. Foi pela poesia que se entendeu como é uma língua. Língua não existe. O que temos é a fala. Onde está a língua? É uma abstração. Lá se foram os gramáticos tentar formular como são as línguas. A quem recorreram? Aos poetas. Italiano se escreve assim porque Dante escreveu, diz como último recurso um gramático. Português é desse jeito porque o exemplo é Camões. Olha quantas páginas esse cara fez - dirá o gramático – vai duvidar dele? É claro que os poetas não fizeram nada disso para virar a matriz de pensamento ou de linguagem de um povo. Fizeram porque são artistas. Tiveram a necessidade de fazer. Mas são, mesmo sem querer, o que molda a expressão, a maneira de perceber as coisas e, mais do que isso, a maneira de dizer as coisas de um povo. Mesmo que não leia um livro de poesia durante toda uma vida, ninguém está nem estará distante da poesia. As formas poéticas, os temas, estão velados nas canções populares, nas abordagens dos compositores, nas tramas de novelas, na fala do dia-a-dia, no jeito de ser, de pensar e de sentir. Fazer uma viagem pelas relações entre poesia e história da sensibilidade de um povo é o que nos traz a leitura dos quatro volumes da coleção de poesia espanhola traduzida e organizada por Fábio Aristimunho Vargas, editora Hedra. Na Espanha, co-existem quatro línguas: castelhana, catalã, basca e galega. É uma mini-babel. Durante a ditadura de Franco, as outras três línguas que não a castelhana foram proibidas. Só com a constituição de 1978 é que voltaram a ser consideradas também como línguas oficiais. O trabalho do Fábio, paranaense de origem espanhola, veio preencher uma lacuna que existia na própria história da literatura espanhola. Não havia até então uma antologia que contemplasse a poesia das quatro línguas. A seleção dos autores e dos textos abrange o período que vai do século XII até a Guerra Civil Espanhola, encerrada em 1939. Poemas épicos contando os feitos de um herói, cantigas louvando ou avacalhando alguém, relatos de moça virgem que não se entrega a quem a raptou, religiosos em conflito com o corpo e a espiritualidade, louvações à bebedeira na brevidade da vida, reflexões refinadas e supimpas sobre a existência humana, amores exagerados que só existem assim nos textos, cantares à pátria, à língua, observações da natureza, humor inteligente, jogos criativos de palavras, crítica e sátira política e, de quebra, alguma sacanagem. Todas as matrizes da poesia ocidental estão ali. Pelos quatro volumes, salta aos olhos o timaço da poesia castelhana: Jorge Manrique, um guerreiro e nobre do século XV, Santa Teresa de Ávila no século XVI, Luis de Góngora na virada para o XVII, no mesmo século Francisco de Quevedo e Pedro Calderón de La Barca, no XIX vêm Miguel de Unamuno e Rosália de Castro e, na virada para o XX, Antônio Machado e Federico Garcia Lorca. Por um lado, é leitura para iniciados. Por outro, uma vez que contempla o que, de certa forma, o senso comum espera do poema (amor, rima, sonoridades, versificação retrô) pode ser lido na rodoviária esperando o ônibus.

Poemas

A vida é sonho
(fragmento)
Pedro Calderón de La Barca (Poesia espanhola – castelhana)
(1600-1681)

Sonha o rei que é rei, e deve
com este erro viver mandando,
só dispondo e governando;
e este aplauso, que por breve
período recebe, inscreve
no vento, e em cinzas a morte
o converte, triste sorte!
Há quem pretenda reinar
vendo que há de despertar
em pleno sono da morte?

Sonha o rico em sua riqueza,
que mais ganhos lhe oferece;
sonha o pobre e sua pobreza;
sonha o que terá grandeza,
sonha o que afana e pretende,
sonha o que agrava e ofende,
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
embora ninguém o entende.

Eu sonho que estou aqui
das prisões encarregado,
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção,
e é pequeno o maior bem:
que a vida é sonho também,
e os sonhos, sonhos são.


Provérbios e cantares
(fragmentos)
Antonio Machado (Poesia espanhola – castelhana)
(1875-1939)

XXIX

Caminhante, são teus passos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se o caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se pra trás
vê-se a vereda que nunca
se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
a não ser sulcos no mar.



A Roma sepultada em ruínas
Francisco de Quevedo (Poesia espanhola – castelhana)
(1580-1645)

Procuras Roma em Roma, ó peregrino,
e achar em Roma a própria Roma falhas;
se agora são cadáveres as muralhas,
é de si mesmo túmulo o Aventino.

Jaz, onde antes reinava, o Palatino;
e, do tempo corroídas, as medalhas
mais parecem destroços de batalhas
de outras idades que brasão latino.

Só o Tibre restou, cuja corrente,
se a regou cidade, hoje sepultura,
a chora em som funesto e comovente.

Ó, Roma, em teu grande esplendor e altura
fugiu-te o que era firme, e tão somente
o fugidio é que persiste e dura.



Letrilhas satíricas
(fragmento)
Luis de Góngora (1561-1627)

Que esteja a bela casada
bem vestida e bem guardada,
bem pode ser;
mas que o ingênuo do marido
não saiba quem deu o vestido,
não pode ser



Epitáfio
Francesc Vicenç Garcia – (Poesia catalã)
(1579-1623)

(à sepultura de um grande bebedor de aguardente, que morreu de gota)

Aqui jaz o que pensou
estar a salvo da gota,
porque d’água uma só gota
(só ardente) nunca tomou.
Por fim a gota o esgotou
e o tragou destes conflitos,
e por tempos infinitos
estará sua epiderme
ilesa, pois nenhum verme
a tomará dos mosquitos.


(sem título)
Rosália de Castro (Poesia galega – obs: a poeta também integra a antologia castelhana)
(1837-1885)

Agora cabelos negros,
mais tarde cabelos brancos;
agora dentes de prata,
amanhã dentes quebrados;
hoje bochechas rosadas,
amanhã corpo enrugado.
Morte, morte negra,
cura de dores e enganos:
por que não matas as moças
antes que as matem os anos?


Baco não quer altar nem quer admiração
Salvat Monho (Poesia basca)
(1749-1821)

Baco não quer altar nem quer admiração.
Para os homens deixou somente uma instrução:
o vinho sem a água à vontade beberem,
se da morte manter-se a distância quiserem.

Se pensam que viver se reduz a existir,
felizes vamos ser e um bom gole ingerir.
Pois não sabemos como a vida prolongar,
Deixemo-nos beber se o coração mandar.

Se alguém se dá ao trabalho, então não perca a vez:
o copo está vazio, pode enchê-lo outra vez.
Gozar, até esquecer o que nos aborrece
e as lembranças ruins que ninguém esquece.

Bebamos outra vez; é como sói dizer:
que dois copos depois, o terceiro é um dever.
E se esse coração no fundo ainda é triste,
talvez o quarto copo enfim o reconquiste.


(Publicado originalmente no jornal Zero Hora)



sábado, 16 de maio de 2009

Ver e ouvir



Durante séculos, a poesia foi uma arte que criou com o som das palavras. As rimas e as métricas facilitavam a memória de quem iria dizer o poema, muitas vezes longo, contando e cantando os grandes feitos de um herói. Escrever esses textos servia apenas para registrá-los a fim de que não se perdessem. Era o que faziam os copistas.
Ler o poema no papel e não mais ouvir da boca do poeta é coisa que vira moda depois de Gutemberg. Com os livros, os poetas passaram a incorporar um novo elemento ao texto: o papel. E, nele, a palavra como desenho. Saímos do reino do ouvido para o dos olhos.
Trajetória inversa à da história da poesia teve que fazer o poeta paulista Glauco Mattoso. Leitor desde muito cedo, foi acometido por um glaucoma. Daí, ironicamente, criou seu pseudônimo GlaucoMattoso. Enquanto ainda enxergava, criou os geniais textos do Jornal Dobrabil. Eram cartas, dobradas, colocadas em envelopes e enviadas para diversas pessoas. Lidava com os tipos da máquina de escrever, criando letras enormes com a repetição das letrinhas datilografadas.
Quando não mais enxergou, desenvolveu uma intensa produção de sonetos: rimados, com contagem de sílabas e número fixo de estrofes e versos. Sem a visão, pegou as palavras novamente pelo som. Um dos seus livros se chama Poética na Política. Ouve aí um dos sonetos: “Fulano é candidato e, na pesquisa,/dispara feito um Senna, lá na frente./Sicrano também quer ser presidente,/mas, como é governista, se narcisa.//Fulano em bronca nada economiza./Sicrano, o branco, rindo, mostra o dente./Barbudo, diz Fulano que “Ele mente!”/Farsante, tem Sicrano a cara lisa.//Por fora corre o cínico Beltrano,/gozando, no debate, os dois primeiros:/”Aquele dá calote; este dá cano!”//Produto, todos os três, dos marqueteiros,/não têm ciência ou fé, projeto ou plano:/iguais, de resto, aos outros brasileiros.”
(Publicado originalmente no jornal Zero Hora.)

sábado, 2 de maio de 2009

Para ler com fones de ouvido



Não tenho visto por aí livros que contenham mais de um gênero literário. Houve um tempo em que era mais comum haver edições com contos e crônicas e, às vezes, até poemas junto. Lembro de um de que gostava muito, o Geração Grapete, da Suzana Kilpp. Outro legal com textos variados era o Aquele Um, do Luciano Alabarse. Muitos vinham também com fotografias e desenhos. Achei em Buenos Aires uma edição bonita e com um preço ótimo de um livro do Julio Cortázar. É o Salvo el crepúsculo. Nele, Cortázar colocou suas crônicas e seus poemas. Em um dos textos, o autor cita um amigo que diz não gostar de livros que contenham textos de prosa alternando com poesia. Segundo o amigo, por uma questão de ritmo de leitura. A cabeça entra num ritmo e, em seguida, tem que mudar de código. Cortázar diz que não se importa com isso. Tanto que publicou um assim. Há uma crônica genial chamada Para escuchar com audífonos. Cortázar fala da curiosa fração de segundo que precede ao primeiro som de um disco escutado com fones de ouvido. Tratava-se de audição dos discos de vinil. Um pedacinho do som que viria a seguir soa antes. Parte do que viria depois, vinha antes. Não sei você que me lê já passou por essa experiência. Eu já. E a crônica percorre esse mistério, relatando as explicações de um técnico em eletrônica, mescladas às indagações filosóficas e criativas do autor. Um exemplo de um trecho da crônica: “el poema es en sí mismo um audífono del verbo”. Antes disso, um poema chamado Crónica para César: “y tu mismo dirás tu nombre como si te miraras al espejo/porque ya no distinguirás entre los adoradores y el ídolo”. A poesia trata do imperador romano Júlio César.Tem poema do Haroldo de Campos, trecho de Clarice Lispector, traduções, enfim, um livro tão livre e inteligente como o são seus livros de contos, por exemplo. Tive uma certa dificuldade durante um tempo para memorizar o título do livro. Depois que comprei, vi porque ele tem esse nome. É um verso de um haicai do Bashô, o poeta japonês do século XVII. Em português, é assim: “este caminho/que ninguém mais percorre/a não ser o crepúsculo”. Em espanhol, o último verso fica “salvo el crepúsculo”. Há um eco desse poema numa música do Arnaldo Antunes: “no caminho que ninguém caminha/alta noite já se ia(...)nenhuma pessoa sozinha ia/nenhuma pessoa vinha...”. Arnaldo leu Bashô. Intuo que foi dali que traduziu criativamente o “este caminho que ninguém mais percorre” para “no caminho que ninguém caminha”. Também encontrei haicais na reunião de poemas do Borges que achei por lá e no Inventario Tres, o terceiro volume das obras completas com a poesia do genial uruguaio Mario Benedetti. O livro de Bashô que ficou para a história, Sendas de Oku, é um haibun, um livro de viagens. Nele, o autor relata a viagem que fez pelo Japão até os lugares citados em poemas dos poetas clássicos japoneses. Lá, ele fazia um poema seu, um haicai, que mostrava no livro. Ou seja, uma crônica de viagem em prosa convivendo perfeitamente com ótimos poemas.
(Publicado originalmente em Zero Hora)

sábado, 18 de abril de 2009

Números


Há mais pessoas interessadas em prosa ou em poesia nas comunidades do Orkut? Para fazer a pesquisa, é fácil. Basta colocar no item comunidades e digitar o nome do autor que se pretende verificar. Aparecem a seguir todas as comunidades que fizeram em sua homenagem em ordem decrescente pelo número de participantes. Vamos ao ranking. Elegi primeiro os grandões para comparar. De um lado, Drummond, aquele que parece ocupar o posto de maior poeta brasileiro. De outro, Machado de Assis, que, apesar de ter escrito uma vasta obra poética, é cultuado como o maior prosador do Brasil, por seus contos e romances. A maior comunidade de Drummond tem 267.809 participantes. A maior de Machado, 95.146. A coisa piora para o lado da prosa se comparamos Machado com Vinícius de Moraes. A turma de orkuteiros do poetinha soma 322.072. Passa inclusive do Drummond. E se a briga vai além do oceano, com o português Fernando Pessoa, 270.479. Mais uma vez, vitória esmagadora da poesia. Vinícius honra a poesia nacional, não arregando para o genial portuga. E isso que Pessoa é mais de um poeta, pois criou seus famosos heterônimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, entre outros. Machado faz frente a Manuel Bandeira, que comparece com seus 53.826 internautas. Bandeira ganha dos 22.791 de Leminski, com menos estrada na história da nossa literatura. E Quintana? 180.871, quase o dobro de Machado. Fui pesquisar outros prosadores. Por exemplo, Jorge Amado, um dos romancistas mais populares do Brasil: 13.526. E o fenômeno de vendas Paulo Coelho, 70.657. Luis Fernando Verissimo levanta o moral da prosa com 121.137 na sua comunidade. Fernanda Young com seus 14.471 tem menos do que Martha Medeiros com 21.778. Ambas lançaram também poesia e são muito mais conhecidas pela prosa, além de terem grande presença na mídia. Mas ficam atrás do poeta Paulo Leminski, morto em 1989. Ou todos os poetas brasileiros estão no Orkut, ou há um público grande a ser melhor explorado pelo mercado editorial no país.

(Publicado originalmente no jornal Zero Hora, em 9/4/2009)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sebos


De quem eram esses livros todos que estão nos sebos? Nem sempre o livro faz o caminho mais curto até chegar às mãos de um leitor que o deseje. Da editora para a livraria e por último para quem o comprou. Muitas vezes, volta para um sebo, à espera de uma segunda chance. É claro que vender os livros que se tem em casa também é uma maneira de levantar um troco quando se está precisando. E tem aquelas pessoas que morreram e deixaram de herança sua biblioteca para ser passada nos cobres. Quando se é autor e se acha um livro da gente num sebo, pensamos logo que alguém não gostou do que escrevemos. Mas quando vemos os outros autores que nos fazem companhia, ficamos mais aliviados: Kafka, Borges, Tolstói, Machado de Assis, Drummond e por aí vai. Deve haver outros motivos para terem se desfeito dessas obras. Soube pelo poeta gaúcho que vive no Rio de Janeiro, Cairo de Assis Trindade, que ele comprou o meu Palavra Mágica, de 1994, num vendedor de rua, na calçada de Copacabana. Cairo trabalha os poemas em sala de aula com seus alunos. Era o leitor certo. O livro precisou fazer todo esse tortuoso trajeto para chegar às mãos dele. Estávamos em Itajaí, na semana passada, num sebo, durante a turnê do nosso grupo, os poETs, eu e o poeta Ronald Augusto. Achei o Visagens, do Alexandre Brito, o outro integrante dos poETs. Saiu no começo da década de oitenta. Está o Alexandre com um chapéu de feltro, típico look pós-hippie, na foto da contracapa. O Ronald comprou. Não tinha conseguido encontrar na época. Talvez essa tenha sido a única vez na vida em que passaríamos por aquele sebo. E lá estava o Alexandre nos esperando na prateleira com seu chapéu. Levei pra casa Comemoração da Salada, da poeta japonesa Machi Tawara. É um conjunto de tankas, poemas curtos que captam situações cotidianas a partir de uma ótica pessoal. Saiu no Brasil em 1992. No Japão, em 1987, vendeu três milhões de exemplares. Um dos tankas:” “Me telefone de novo.”/”Me espere.”/Seu amor por mim, sempre no imperativo.” Outro: “Fácil comparar a correnteza do rio./Incomparável/é a pedra do fundo d’água.”

segunda-feira, 30 de março de 2009

Liberdade




Estive relendo o Manuel Bandeira. Olha, desde os 11 anos leio esse poeta. Lembro que na quinta série tinha um livro muito legal nas aulas de Português, o Criatividade. Não era de gramática. Nem era daqueles com exercícios de compreensão de texto, cujo único objetivo parecia ser checar se você não é um completo pateta. Tipo assim, vem um parágrafo e a seguir uma série de perguntas cujas respostas estão todas nele. Nada disso. O Criatividade era um livro com poemas, letras de música, crônicas, histórias em quadrinhos e muitos exercícios de criação a partir das leituras. Foi nele que li pela primeira vez poemas do Manuel Bandeira como o Porquinho da Índia, Irene, Vou-me embora pra Pasárgada, Trem de Ferro.
Mais tarde, com 16 anos, li toda a Antologia Poética do Manuel. Reli-o agora pela sabe-se lá que vez, numa publicação da Nova Fronteira. São dois dos livros mais significativos do poeta reunidos num só volume: Libertinagem e Estrela da Manhã. O primeiro é de 1930, e o segundo, de 1936.
A primeira surpresa é como, em termos formais, ele continua novo. Enumerações sem uso de vírgula, guiadas pelo ritmo do verso, não pela gramática da frase. Uso de minúsculas, versos enormes, temas inusitados, versos curtíssimos, experimentação. E ainda somado a uma visão de mundo, de percepção aguçada do que está dentro e fora dele. Uma provinha: “Uns tomam éter, outros cocaína./Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria./Tenho todos o motivos menos um de ser triste./Mas o cálculo da probabilidades é uma pilhéria...” Ou o final tragicômico do poema “Pneumotórax” “-O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado./-Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?/-Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.” Tem a genial “Balada das três mulheres do sabonete Araxá: “As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me boulerversam, me hipnotizam./Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!/O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!/... Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?/Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá: O meu reino pela três mulheres do sabonete Araxá!”
Repare a sucessão de perguntas iniciadas por letra minúscula numa opção clara de ritmo. Pra digitar aqui tive que voltar todas vezes o cursor porque o computador, que nada entende de verso, fazia a correção da maiúscula para início de frase. O computador, em 2003, ainda não assimilou um poema de invenção de 1936!
De tempos em tempos, o mundo fica careta. Cultuar o consagrado, jogar na retranca, parece pegar bem. Nessas horas é bom ler um poema como “Poética” do Bandeira: “Estou farto do lirismo comedido/Do lirismo bem comportado/Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.../-Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.” Nem eu.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A ronda de Caetano Veloso




Ouvir as melodias. Foi o que aprendi um pouco com o músico e professor Leandro Maia. Uma boa maneira de fazer isso é cantarolar a melodia sem a letra. Foi o que fiz nesta semana pra achar em que ponto Sampa, de Caetano Veloso, dialoga com Ronda, de Paulo Vanzolini. Já sabia que havia esse diálogo, acho que de entrevistas do Caetano. Ouvia uma semelhança, mas fui descobrir onde estava. É no último verso de Ronda: “cena de sangue num bar da Avenida São João”. Experimente cantarolar sem a letra. Ou ouça a gravação de Sampa com João Gilberto. Ele inicia cantarolando esse ponto, dando a dica. Esse trecho se repete em partes da melodia de Sampa: “e novos baianos te podem curtir numa boa”. Também antes, depois de quando ele fala da Rita Lee, na repetição do “que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João”. E fechando a estrofe seguinte: “porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”. Então, para falar de São Paulo, Caetano foi pegar como base Ronda, um samba que é um verdadeiro hino da cidade. Começa com “de noite/eu rondo a cidade/a te procurar...”. Essa ronda pela cidade, à procura de entender São Paulo, está na canção de Caetano. E a Avenida São João, que termina Ronda, começa Sampa: “alguma coisa acontece no meu coração/que só quando cruz a Ipiranga e a Avenida São João”. A avenida atravessa as duas canções. Na de Caetano, desfilam todos os símbolos que ele considera importantes no seu desvendamento de Sampa. Rita Lee, que chama de a mais completa tradução. Mutantes. “Teus poetas de campos e espaços”, alusão aos poetas concretos Haroldo e Augusto de Campos. “Da dura poesia concreta de tuas esquinas”. E Décio Pignatari, o outro poeta concreto, também é citado com o avesso do avesso. Túmulo do Samba é como Vinícius de Moraes se referiu a São Paulo para o pianista Johnny Alf. E assim Caetano vai rondando a cidade por vários ângulos: culturais, afetivos, críticos, autocríticos. “E os Novos Baianos (a banda do Moraes Moreira, Pepeu, Baby...) passeiam na tua garoa”. “E novos baianos (outros baianos que não param de chegar) te podem curtir numa boa”.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Agora você vai ouvir aquilo que merece


Sempre tem alguém resgatando Lupicínio Rodrigues. Em texto de 1967, o genial poeta Augusto de Campos falava que Lupi, depois de um período de grande sucesso, andava esquecido. Relata que veio a Porto Alegre para entrevistá-lo. O encontro foi no Clube dos Cozinheiros, um restaurante administrado pelo cantor Rubens Santos. Estavam com Augusto os poetas concretos Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Só pelo interesse desses três que estão entre os mais cultos e inventivos escritores brasileiros, já dá para ver a importância da obra do Lupi. E ele aqui, em Porto Alegre, discreto, cantando à capela no bar do seu grande e talentoso amigo. Augusto conta que ouviu muitas canções inéditas naquela noite. Depois do bar fechar, Lupicínio soltou o gogó e mandou ver sem acompanhamento nenhum. Em texto de 1974, Augusto fala que, para sua alegria, o quadro de esquecimento foi se alterando. Em 71, João Gilberto cantou na tv “Quem há de dizer”, do Lupi. Em 72, Caetano cantou em show “Volta”. Em 73, “Nervos de Aço”. Gal gravou “Volta”. Macalé cantou “Um favor”e “Ela disse-me assim”. Paulinho da Viola arrasou em linda interpretação de “Nervos de Aço”. Anos depois, a Bethânia, dramática: “e aí, eu comecei a cometer loucuras/era um verdadeiro inferno, uma tortura/o que eu sofria por aquele amor”. Tem uma gravação clássica de tv, em preto e branco, com Lupicínio cantando. Sua interpretação calma, com voz baixa, sem gritaria, contrasta e acentua a força expressiva do seu texto. A frieza do seu canto torna mais crua cada palavra. Há um canto-falado em alguns momentos, como quem conversa: “eu gostei tanto/tanto quando me contaram/que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar/e que quando os amigos do peito por mim perguntaram/um soluço cortou sua voz, não lhe deixou falar/eu gostei tanto/tanto quando me contaram/que tive mesmo que fazer esforço pra ninguém notar”. Como no poema de Drummond: “algumas palavras duras/em voz mansa, te golpearam”. Para revelar a agressividade dessa saudável “Vingança”, fiz um arranjo punk e cantava essa música no repertório da banda de rock Os Ladinos, que tive há alguns anos. O backing cantava “Vingança, vingança, vingança”, e eu seguia “eu quero mais nada/só vingança, vingança, vingança aos santos clamar/você há de rolar como as pedras que rolam na estrada/sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar!”. Era um arranjo Sex Pistols, Ramones. Arnaldo Antunes também fez um arranjo de rock para “Judiaria”. Sublinha com o canto roqueiro a força e a crueza da letra: “agora você vai ouvir aquilo que merece”. E a seguir um verso genial e profundamente irônico: “as coisas ficam muito boas quando a gente esquece”. E segue: “essas palavras que estou lhe falando/têm uma verdade pura, nua e crua/eu estou lhe mostrando a porta da rua/pra que você saia sem eu lhe bater./já chega o tempo em que eu fiquei sozinho/que eu fiquei sofrendo, que eu fiquei chorando/agora quando eu estou melhorando/você me aparece pra me aborrecer”. Um coturno e um cabelo moicano cairiam bem no Lupi.

Vou ali na China e já volto




Estão aí dois grandes poetas brasileiros sendo homenageados quase ao mesmo tempo: Vinicius de Moraes com um documentário no cinema e Mario Quintana com edições comemorativas ao centenário do seu nascimento. Pegando carona nessa onda de relembrar poetas, voltei ao século VIII. No ano de 701, na China, nascia Li Po. A primeira vez que li um poema seu era este: “Na vida/é preciso tanto seriedade/quanto delírio./Se tiveres mais de um pão/vende um/e compra um lírio”. A concisão do texto afirma uma filosofia de vida , quase hippie. Os cabeludos da década de 60 foram buscar no oriente grande parte do pensamento que embasou a contestação aos valores do mundo ocidental. “Se oriente rapaz”, como cantou Gilberto Gil. Tem um livro belíssimo com traduções que a Cecília Meireles fez de dois poetas clássicos chineses: Li Po e Tu Fu. Ali, fiquei sabendo mais sobre o poeta-hippie chinês do século VIII. Ele viveu durante a dinastia Thang. Nesse período, havia na China cerca de 2.300 poetas em atividade. Costumava-se dizer que “naquela época cada homem era um poeta”. Muitas vezes, é da quantidade que nasce a qualidade. Entre esses criadores, Li Po despontou, tendo sua poesia chegado ao ocidente e permanecido até hoje. Num poema escrito por Tu Fu, , seu amigo, prenuncia-se a eternidade da obra de Li Po: “Depois de dez mil, cem mil outonos/não terás outro prêmio que o prêmio inútil/da imortalidade.” Não é por acaso que Cecília Meireles foi traduzir esses chineses. Tanto os textos dela quanto os dos autores que escolheu para recriar na nossa língua estão repletos de imagens. Olha só este de Li Po: “A esposa do guerreiro está sentada à janela./De coração aflito, borda uma rosa branca numa almofada de seda./Picou-se no dedo! Seu sangue escorre na rosa branca, que se torna vermelha./Seu pensamento vai ter com seu amado, que está na guerra e cujo sangue tinge talvez a neve de vermelho./Ouve o galope de um cavalo...Chega, enfim, seu amado?/É apenas o coração que lhe salta com força do peito.../Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata/as lágrimas que cercam a rosa vermelha.” É quase um videoclip. A canção vai narrando a cena da esposa enquanto um show de imagens se desenrola a nossa frente. A ação presente se mistura com as ações do pensamento, enquanto as cores, numa fusão de imagens, vão se transformando. E tudo isso, apenas com palavras. Agora olha esse movimento de zoom dentro do poema da Cecília Meireles: “No mistério do Sem-Fim, equilibra-se um planeta./E no planeta, um jardim,/e, no jardim, um canteiro;/no canteiro, uma violeta,/e, sobre ela, o dia inteiro,/entre o planeta e o Sem-Fim,/a asa de uma borboleta.” Não são poemas para ler apenas. São para ver. Em outro texto, Li Po nos revela a beleza de simplesmente olhar para as coisas. Acompanhe o seu passeio de câmera-olhar: ”As nuvens são leves, o vento é sereno, aproxima-se o meio-dia./Diante das flores, um regato corre, ao longo dos álamos./Os homens não podem compreender a alegria que transborda do meu coração/ e dizem que estou alegre sem motivo, como uma criança.” Só ver já é uma alegria. Precisamos comer muito feijão pra virar chineses.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Tudo já foi feito?


Uma das máximas da arte de vanguarda é que chegaram ao limite disso ou daquilo. Ao limite da linguagem, ao limite da representação, ao limite da narrativa. Esse comportamento muito comum até o final dos anos sessenta, se olhado em retrospectiva, é um dos charmes da época. O que ocorreu depois disso tudo é que as artes continuaram, ou seja, os limites são muito mais amplos do que se supunha. A reação a essa obrigatoriedade da invenção vem com a arte de setenta pra cá, com outra máxima: tudo já foi feito. O que desobriga o artista de ficar fuçando uma novidade, daí o remix, a releitura, a referência. Mas essa é também uma frase de efeito, um charme da época atual. Isso porque é impossível que tudo já tenha sido feito. Há ainda muito por fazer. Sempre vai haver. Enquanto houver uma nova pessoa há grandes chances de haver uma nova descoberta no campo estético. A linguagem também é veículo de uma visão de mundo. E a cada nova geração, ou a cada nova pessoa original que surge no pedaço, a linguagem ganha novos coloridos e, quando menos se espera, ela se reinventa. Falo de linguagem no sentido de conjunto de procedimentos artísticos nas diversas artes. Na pior das hipóteses, como cantou Lulu Santos, “se tudo já foi feito/então vamos fazer tudo outra vez”. Mas por mais iludida que tenha sido a busca das vanguardas, acreditando ter atingido os limites, a postura de se colocar o desafio de fazer algo próprio, diferente em algum aspecto do que se conhecia até então, acabou alargando as possibilidades humanas de pensar e realizar as diversas artes. É o que se pode constatar na leitura do livro Experiência Neoconcreta, do Ferreira Gullar. Ele conta sua trajetória como poeta de vanguarda. Foi procurado pelos concretistas no início do movimento da poesia concreta. Os irmãos Campos e Décio Pignatari já haviam farejado a novidade na poesia de Gullar. Juntos, formularam o que seria o pontapé inicial do que trouxe muita novidade para a poesia do mundo todo. A seguir, Gullar, por discordar de alguns dos pontos programáticos dos concretistas, cria com outros poetas e artistas plásticos o Movimento Neoconcreto. Livro-poema, um poema que sozinho é um livro. Poemas interativos muito antes desse ambiente internético. Caixas que o leitor deve ir abrindo e lendo-descobrindo o sentido. Poema enterrado, uma sala em que o leitor entra para ler o poema. Cortes nas páginas para propor uma determinada leitura. E uma série de propostas criativas que foram insights também para os artistas plásticos do grupo, como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Tanto que Gullar acabou se questionando se não estava sendo menos poeta e mais artista plástico, uma vez que seus poemas tinham cada vez menos palavras, às vezes uma só. O bom desse livro é que Ferreira Gullar conta e reflete sobre o período com os olhos de hoje. E a publicação traz também os textos, manifestos e formulações da época, além de reproduções de vários poemas, inclusive de poemas-livros. Concreto, neoconcreto ou apenas poeta, é sempre o grande artista Ferreira Gullar.

Revanguarda


Quando cheguei, com o poeta Nicolas Behr, ao terceiro andar da Biblioteca Nacional em Brasília, Ziraldo me disse: veio ver a exposição do Reynaldo Jardim? Estávamos indo buscar a poeta Alice Ruiz para um recital que iríamos fazer no bar Martinica. Ziraldo então me apresentou ao poeta que era o homenageado da Bienal Internacional de Poesia. Na saída, disse-me que se tratava de uma das pessoas mais criativas do Brasil hoje. No dia seguinte, fui, em companhia do próprio Reynaldo e de um grupo de poetas amigos, ver seus trabalhos. O prédio já estava fechado, mas dissemos aos guardas que o dono da exposição queria vê-la. Reynaldo Jardim tem oitenta e dois anos. O nome da sua mostra já injeta um gás novo e provocador: Revanguarda, poesia além do poema. Nas paredes, uma seqüência de desenhos feitos por ele e versos esparsos. Ao final, o poema inteiro recomposto. Uma manequim nua e uma caneta para que as pessoas a tatuassem com poemas. Vimos o vídeo com imagens dele, de seus trabalhos gráficos, pinturas e várias poesias. Um poema sobre o beijo. Outro dialogando com a música Se eu quiser falar com Deus, do Gil: “Eu só vou falar com Deus/(...)quando ele descer do céu/e ver que cada menino/sem presente, sem destino/precisa de um beijo seu”. Mais tarde, fomos a um jantar na casa do poeta Luis Tuirba, oferecido em homenagem ao homenageado. Depois da bóia, Turiba levou todos para a sala e colocou um samba-enredo que tinha composto quando Reynaldo fez oitenta anos: “Reynaldo Jardim, jornalista, poeta, escritor/oitenta anos dedicados à vida e ao amor/parabéns pra você e por tudo que você criou.”. O jovem poeta octogenário levantou e começou a dançar, puxando a celebração que foi acompanhada por todos. Fizemos uma rodada de leituras de textos dos poetas presentes. Quando chegou a vez de Reynaldo, ele disse um poema na língua que inventou, chamada Vronsk. Era um soneto, rimado, mas todo com palavras que não existem. Ao final, cai ao chão como se tivesse sido atingido por uma adaga. Aplausos. Ele é mais novo do que todos nós. Ziraldo, que foi embora naquele primeiro dia, tinha razão.

O impreciso


Lendo a poeta americana Emily Dickinson, encontro mais uma autora que possui exatamente aquilo de que mais gosto na arte da poesia. Ela viveu de 1830 a 1886. Publicou poucos textos em vida. Sua obra foi descoberta pela família, 1775 poemas inéditos, após a sua morte. Mas não é esse ar de destino trágico que me agrada. Do que gosto é uma precisa construção do impreciso. Existem os poetas de conteúdo visível. É possível claramente delimitar do que falam. Tratam de temas importantes, roçam os fatos da história do seu tempo. São, na maioria das vezes, os mais aceitos e elogiados, os considerados grandes. A experiência de leitura dos seus textos é mais próxima da que temos na fala comum. Alguém diz algo e não prestamos muita atenção às palavras, olhamos através delas, para o que elas indicam, pois estamos atrás do conteúdo. A prosa realista também dá essa ilusão de estarmos indo frase a frase atrás de um conteúdo. Drummond e Chico Buarque estão nesse time. São entendidos e louvados. Gosto deles também, mas, às vezes, parecem-me balofos de conteúdo. Como se o texto estivesse desequilibrado entre o sugerir, soar e dizer, sem deixar aquele espaço para que possamos até nos perder. Falo aqui de gosto, não de valor. O valor é dado por parâmetros e não pretendo fazer do meu gosto o critério de medida. Por isso, gosto mais de Manuel Bandeira do que de Drummond. Em Bandeira, o poema se realiza com muito pouco, mas se realiza como poema, não como tratado, mini-filosofia, mini-ensaio sociológico. Dos simbolistas franceses, prefiro Verlaine, das Festas Galantes. Do haicai japonês, adoro Issa. Da poesia dos anos 80 no Brasil, Alice Ruiz. Caetano Veloso me provoca mais do que Chico Buarque. Paul McCartney do que John Lennon. Alguns versos dos Poemas Escolhidos da Emily Dickinson, na tradução de Ivo Bender: “Por ocupação, só isto:/Abrir amplamente minhas mãos estreitas/Para agarrar o paraíso.”; “As misérias da conjetura/São uma dor mais amena/Do que um fato de ferro/Endurecido por “Eu sei”.”; “Dá-me, Senhor, uma ensolarada mente/Para suportar Teu desejo tormentoso!”. Palavras precisas para falar do impreciso.

Muito mais do que o irmão da Marina


Hoje há uma certa idealização do que se chamou mpb. Percebe-se em vários trabalhos lançados recentemente uma volta a uma idéia de música brasileira. Essa oscilação entre fazer uma música alinhada com a sonoridade internacional ou com a nacional marca os diversos períodos da nossa história musical. Vejo numa fatia culta dos jovens de hoje um grande respeito a Chico Buarque e Tom Jobim principalmente. Mas houve um período em que a mpb chovia no molhado: o início dos anos 80. As sonoridades sobretudo da música vinda do nordeste foram completamente assimiladas e pasteurizadas pelas grandes gravadoras. As cantoras posavam de divas com arranjos empolados e revisitação da revisitação dos compositores consagrados da música de décadas atrás. As letras competentes mas seríssimas de Chico, Gil , Caetano, verdadeiras teses seja sociológicas ou estéticas em forma de verso/melodia, estavam já pairando acima do bem e do mal. O papo engajado, nacionalista, que dava grande notoriedade a uma parte do que se chamou mpb, ficou sem função no clima de redemocratização do país. Mais: a gurizada que começava a compor estava falando da sua vida, bem mais simples e ainda menos grilada do que as dos quase cinquëntões que até então ocupavam o trono da música brasileira. Como falava um teórico alemão, uma nova visão de mundo pede uma nova linguagem. Nesse contexto, a desconstrução do código mpb começa com os trabalhos de Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Premeditando o Breque e vai se desdobrando na Blitz, Ultraje a rigor, Barão Vermelho, Paralamas, Legião Urbana, Cascaveletes... No meio do caminho, estava Marina. Essa que hoje assina Marina Lima. E junto com ela, seu irmão, o poeta e letrista Antônio Cícero. Marina começou no contexto das grandes cantoras. Ao lado de Gal, Betânia e Elis, ela foi se colocando num misto de cantora de mpb e roqueira. Foi nos discos de vinil da Marina que conhecemos o talento de Antônio Cícero. “Você me abre seus braços/e a gente faz um país”, trecho da música Fullgás. Traz a questão que pesou sobre a cabeça de toda a geração que veio lá da década de 60, que sonhou fazer uma revolução, que perdeu para o regime militar. No texto de Cícero/Marina, o país se reduz ao encontro entre dois amantes. Do macro para o micro. E vice-versa. É o cuspir fora o “ideologês” que marcou toda uma juventude. Em “Virgem”: “As coisas não precisam de você/quem disse que eu tinha que precisar?”. Esse desvencilhar-se do sentimento de perda do seu amor pedindo o apoio das coisas. Aderindo ao desinteresse das coisas. Cícero também pode e deve ser lido nos seus belíssimos livros de poesia. Li e venho relendo sempre “Guardar” e “As cidades e o livros”. “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. /Em um cofre não se guarda coisa alguma./Em cofre perde-se a coisa à vista./Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la,/ isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado./Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,/ isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,/ isto é, estar por ela ou ser por ela.” Cícero é um poeta para guardar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Walydo e relido


“- O que é que você quer ser quando crescer? - Poeta polifônico."

Esse é o poema chamado “Desejo & Ecolalia”, publicado no livro “Algaravias” em 1996 por Waly Salomão. A polifonia poética nos foi apresentada, creio que pela primeira vez, pelo Mário de Andrade lá no seu “Prefácio Interessantíssimo” em 1921.
Para Mário de Andrade, o verso polifônico seria o oposto do verso melódico: “A poética está muito mais atrasada que a música. Esta abandonou, talvez mesmo antes do século 8, o regime da melodia quando muito oitavada, para enriquecer-se com os infinitos recursos da harmonia. A poética, com rara exceção até meados do século 19 francês, foi essencialmente melódica. Chamo de verso melódico o mesmo que melodia musical: arabesco de vozes (sons) consecutivas, contendo pensamento inteligível. Ora, si em vez de unicamente usar versos melódicos horizontais (...) fizermos que se sigam palavras sem ligação imediata entre si: estas palavras, pelo fato mesmo de se não seguirem intelectual, gramaticalmente, se sobrepõem umas às outras, para a nossa sensação, formando não mais melodias, mas harmonias. (...) Mas, si em vez de usar só palavras soltas, uso frases soltas: mesma sensação de superposição, não já de palavras (notas) mas de frases (melodias). Portanto: polifonia poética.”
Era essa a busca estética revelada por Waly. Sair do verso melódico, aquele poema composto por uma idéia que se sucede linha a linha do início ao fim, para chegar ao verso polifônico, uma sucessão de idéias que se sobrepõem, às vezes se opõem, sem a necessidade de chegar à conclusão alguma. Dois títulos dos seus livros mais recentes apontam para esse caminho: “Algaravias” e “Lábia”. Falar. Falar muito e tudo e ao mesmo tempo.
Como Waly mesmo coloca no início do “Algaravias”, citando o “Diccionario Etimologico de la Lengua Castellana”: “ALGARABÍA ...lengua de los alárabes... Y como esa lengua de los alárabes era um á. corrompido, poco inteligibel para los castellanos, de ahí que traslaticiamente pasase algarabía a sígnificar cosa dicha o escrita de modo que no se entiende, y gritería de varias personas que por hablar todas a un tiempo, no se pude comprender lo que dicen. (...) Algarabía es también nombre de planta, y parece que se le dió por la confusión de sus ramas, aludiendo al significado com que está comunmente recebida la voz algarabia.”
Trama algarábica que vem também de berço. No item “Sobre o autor”, aquela seção final muito comum nos livros, Waly colocou “Nasceu em Jequié, Bahia. Filho de sírio e sertaneja bahiana.”
Em “Lábia”, 1988, temos o seguinte: “Procura do ponto de liga alquímica: amálgama de oral (reino da mente veloz em presença, do imediato, das súbitas vozes intervenientes, do espírito em chamas, do “estalo de Vieira”, das línguas de fogo em reprise do Pentecostes ao vivo?) e de escrito (reino do aditamento, do recalque, do mediato, do procrastinado, da letra morta in vitro?)”

Um poema do “Algaravias”:

“HOJE

O que eu menos quero pro meu dia
polidez, boas-maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponte e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás...)

Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.

Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que o ritmo jorra fácil,
Pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d´água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e
passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje...”

Agora, um do “Lábia”:

“POST-MORTEM

Um cavalo-marinho mergulha em seus círculos de corais
mas em sua mente só revela a atualidade do belo.
O passado pode estar abarrotado de chateações
mas daqui pra frente ótimas fotos e melhores filmes
e amor e gravidez no bojo do macho
e horas infindas deitado nas areias
especulando nuvens
que se esgarçam ao sabor e ao deslize das figuras.
Um gosto permanecer aqui extasiado
e sem querer comparecer a nenhum vernissage
cansado dos artistas
que dão a seus quadros a última demão de verniz
e permanecer lasso das exposições e dos museus a visitar
e do dernier cri
esquecer os pacotes de encomendas à Amazon Books
e fugir dos seminários sem sêmen nem humor trocadilhescos.
Quase morrer é assim:
uma cada vez mias crescente ojeriza com a “vidinha literária”
de par com a imorredoura memória de certas linhas,
por exemplo,
que durante o resto de tempo que me é concedido viver
e na hora H da morte,
estampada na minha face esteja a legenda:
O que amas de verdade permanece, o resto é escória.
Sonhar com Provenças e Venezas e Florenças.
Rever Piero della Francesca
e a Essaouira de meu amigo Garbil, o boxeador.
E a vista de Delft de Vermeer.
A Barcelona do poeta-clochard-palhaço Joan Brossa.
A cena de New York, minha e de todos e de Ashbery
e de Frank O´Hara e de ninguém.

Sobem fiapos da infância de um tabaréu:
ora eu era
uma piaba nadando por entre bancos de areia do Rio das Contas
ora eu era
um acari das locas do Gongogi – rio cheio de baronesas.
Idade de ouro fluvial, plástica, flamante.
Fogueira gigante das noites de São João. Fogos-de-bengala.
Eu sozinho menino e o Amadis de Gaula
e os outros todos principais cavaleiros
e as outras todas principais damais
que povoavam as varandas, os pastos, o curral, a balsa, a chácara,
as pedras, os capins e as matas da Coroa Azul do raro Balito.
Convive-se com uma criatura sem imaginar sequer de que reino porvém.

Zelar pelo deus Treme-Terra que meu coração devolveu.
Não cortejar a morte.
Não perambular pelos cemitérios
nem brindar o luar patético
com caveiras repletas de vinho tinto seco
como um Byron-Castro Alves gótico e obsoleto.
Sereno e cabeça dura – testa ruda –
mirar de frente a caveira
e as tropas de vermes em prontidão
(como observo vermes dentro de um pêssego)
mas por enquanto gargalhar da irrealidade da morte.
Gozar, gozar e gozar
a exuberância órfica das coisas
em riba da terra
debaixo
do
céu.”

E a irrealidade da morte se tornou real agora em maio de 2003. Aos 58 anos, Waly se foi, vítima de câncer. E morreu num dos momentos de maior refinamento estético da sua poesia. Na verdade, seu texto sempre foi acentuadamente polifônico. Desde o primeiro livro “Me segura qu´eu vou dar um troço”. Lá, tanto na longa narrativa que dá título ao livro, como nos poemas seguintes, as frases/versos/idéias não seguem uma linearidade. Entrecortam-se, surgem imagens, parênteses, colagens. Sempre um texto vivo, que questiona a si mesmo, pensa alto.
Na letra de música, também usou de recursos nada usuais ao gênero. Imagens fortíssimas irrompem de dentro da melodia:
“com minhas calças vermelhas/meu casaco de general/cheio de anéis/ vou descendo por todas a ruas”(“Vapor Barato”).
“quando nela ponho o pensamento/fogueira abraça lenha e lenha com brasa se casa/o sol em combustão dispara raio relâmpago trovão/arco-íris fontes matas rios montes cascatas/chuva sêmen seiva sangue saliva/o mar oceano todo ele se ativa” (“A Cabeleira de Berenice”).
Essa genial polifonia espera por você em alto e bom som nos livros do Waly Salomão: “Me segura qu´eu vou dar um troço” (José Álvaro Editor, 1972), “Gigolô de Bibelôs” (Brasiliense, 1983), “Armarinho de Miudezas” (Fundação Casa Jorge Amado, 1993), “Algaravias” (Editora 34, 1996), “Lábia” (Rocco, 1998), “Tarifa do Embarque” (Rocco, 2000) e “Mel do Melhor” – antologia poética (Rocco, 2001). Se vire, vá atrás, encomende. Porque um poema que escrevi quando da morte do Leminski também se aplica aqui:

não quero mais de um poeta
que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo

sábado, 4 de outubro de 2008

Imagens


Vinha pensando sobre o Armindo Trevisan. Pensei que já estava na hora de se fazer uma homenagem à altura da importância da sua obra. Dias depois, recebi o convite para ir à solenidade da Câmara de Vereadores em que se concederia o título de Cidadão de Porto Alegre a ele. Felizmente tinha mais gente pensando como eu. E, melhor ainda, agindo. Trevisan é de Santa Maria, mas passou grande parte da sua vida em Porto Alegre. Formou muitos alunos no Instituto de Artes da UFRGS na suas belíssimas aulas de História da Arte. Escreveu e publicou livros importantes sobre como apreciar a arte e sobre vários aspectos relevantes das artes visuais. Paralelamente a isso, construiu de 1967 para cá uma das mais interessantes trajetórias no cenário da poesia brasileira. São mais de uma dezena de livros, todos com o rigor e o cuidado de quem pegou palavra por palavra nas mãos. Pesou uma a uma. Apalpou, levou ao ouvido como conchas para escutar os segredos que tinham a dizer ou a ocultar. E já estou falando como a sua poesia, por imagens. Trevisan é um poeta-pintor. Seus textos são muitas vezes carregados de cores, de volumes, de texturas, de ritmos. Não o ritmo da música, mas o ritmo das pinceladas. Se o seu lado professor de artes sabe ler as imagens e transformá-las em palavras, o seu lado poeta sabe fazer o contrário: pintar com palavras. Leia/veja esse “Canto à Maternidade 6: A pomba em teu lábios pousa./Ei-la: a voar entre teus dedos/com a agulha e a linha. Aos primeiros/plátanos do outono, seu ouro aumenta,/e desaparece numa fita de cabelo./Tu a segues/polindo panelas. Quando se sustém/no bordo de um telhado,arrepiada/a paz te agasalha sob as plumas.” Talvez não haja pomba nenhuma, mas só a imagem dela associada aos movimentos da mãe. O significado se dissolve entre as imagens, como na pintura. Ver fica maior do que entender. Agora esse “Ciclo do Pai 15: Tua morte, Pai, é repouso/de espiga em celeiro, equilíbrio/de pedra sobre o musgo. Enquanto o sol/me aquece, vou, por entre/aves de gargantas polidas,/a medir-te a sombra. Palpo,/num aperto de mãos, o frio abrupto/de teus ossos. E me conformo ao feixe/que te reúne aos planetas,/e à ferrugem de um balde/gotejando luar.” Os dois poemas estão em “A Mesa do Silêncio”, editado pela L&PM em 1982, uma das melhores coisas que li até hoje. Dá vontade de citar o livro todo. Só mais um. “Ciclo do Pai 6: Não lerei teu caderno de dores. A cancha,/serpente que perdeu a pele/em vereda de pedra,/recolhe o riso dos companheiros./Rutila a cerveja. Ao balanço/dos braços bolas se entrechocam. Do crepúsculo/restou esta face/que me possui, e não se perdeu em nenhum espelho./Vai atrás de ti/invadindo sombras.” Para quem quer ter uma visão mais ampla da poesia do Trevisan, tem a Nova Antologia Poética, lançada em 2001 pela Editora Sulina. Quanto às homenagens, espero que o título de Cidadão de Porto Alegre tenha sido só o começo.

Obviedades


Você já foi ver o filme tal? Repare no já foi ver. Como se fosse uma imposição. Algo a que todos estariam destinados a assistir mais cedo ou mais tarde. É só uma questão de tempo. E normalmente o filme tal é o mais engana-bobo possível. Pois não fui e normalmente não irei. Mas uso aqui esse ar de obviedade, espanto e imposição da pergunta. Você já leu o Lero Lero, livro do Cacaso? Certo, quem é o Cacaso? Foi um do poetas legais que publicaram seus livros no Brasil de 1967 a 1985. Começou a escrever numa fase em que todos sonhavam em ser o João Cabral de Melo Neto. Isso ali nos anos 60. Depois, já para o meio da década de 70, aparecem seus textos que, junto com outros poetas dessa década, ficaram conhecidos como a poesia marginal. Tirando o rótulo e bebendo a cerveja sem propaganda, essa poesia do Cacaso traz hoje um ar muito bom de re-respirar. Tem toda uma alegria de escrever, de ousar, de buscar um pouco da simplicidade de um Manuel Bandeira, por exemplo. Mas num contexto de outra juventude, com outros valores, outra sexualidade. Poesia com vida. Com reflexão rápida e precisa. Só com as palavras que se fazem necessárias. Como naquela canção do desenho do Mogli: “necessário/somente o necessário/o extraordinário é demais”. Um exemplo do Cacaso no seu poema Livre-arbítrio: “Todo mundo é toureiro./Cada um escolhe o/touro que quiser na vida./O toureiro escolheu o/próprio/touro”. Maravilha. Universal. Pode ser traduzido para qualquer língua. Em qualquer lugar do planeta, basta ser um ser humano para ter que enfrentar as suas broncas, os seus touros. E o legal é a imagem e a leitura que Cacaso faz da escolha do toureiro. Uma pessoa que vive desafiando diretamente a sua vida e não indiretamente como todo mundo. Mas nessa diferença acaba se igualando a todos nós. Um outro poema, bem curtinho: “Outro amor? Não caio mais.” Mais um com o mesmo tema: “Muitas mulheres na minha vida./Eu é que sei o quanto dói.” São poemas-bombas, de efeito instantâneo. Condensam os significados em uma ou duas linhas. Mas abrem para o leitor uma série de ressonâncias, como uma pedra atirada ao lago. Cai num ponto, mas as ondas se alastram. Cada um que encaixe seus amores desfeitos, que deixe o poema ecoar lá no fundo de tudo que estava só esperando a pedrada. Palavras alheias para dar forma ao que é nosso e estava adormecido. Um poema curto que pode abrir uma longa conversa interna com o leitor. Para os que adoram contexto histórico, tomem este: “Meu coração /de mil novecentos e setenta e dois/já não palpita fagueiro/sabe que há morcegos de pesadas olheiras/que há cabras malignas que há/cardumes de hienas infiltradas/no vão da unha na alma/um porco belicoso de radar/e que sangra e ri/e que sangra e ri/a vida anoitece provisória/centuriões sentinelas/do Oiapoque ao Chuí”. Ditadura, 72, antes da distensão, as hienas infiltradas, os centuriões. Tem tudo isso e mais um pouco nesse livro que reuniu toda a poesia do Cacaso. Edição caprichada da Cosac & Naify com a 7 Letras. Leia e saia perguntando por aí com ar de obviedade.

Mario Quintana: da poesia da arquitetura à arquitetura da poesia


Nessa história de saber se o poeta é maior ou menor, opto por aquilo que já se disse sobre o pênis. Não importa o tamanho, mas sim o prazer que ele proporciona. Centímetros à parte, tem um poema do Mario Quintana que me fez pensar sobre a trajetória desse que é um dos onze craques que eu escalaria caso fosse o técnico da seleção poética da língua portuguesa. É o “Arquitetura funcional”, que está no livro “Apontamentos de história sobrenatural”.

Arquitetura funcional

Não gosto da arquitetura nova
Porque a arquitetura nova não faz casas velhas
Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares
Que andam por aí...
É não-sei-quê de mais sutil
Nessas velhas, velhas casas,
Como, em nós, a presença invisível da alma... Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.
Como pode nelas vir morar o sonho?
O sonho é sempre um hóspede clandestino e é preciso
(Como bem sabíamos)
Ocultá-lo das visitas
(Que diriam elas, as solenes visitas?)
É preciso ocultá-lo dos confessores,
Dos professores,
Até dos Profetas
(Os Profetas estão sempre profetizando outras coisas...)
E as casas novas não têm ao menos aqueles longos, intermináveis corredores
Que a Lua vinha às vezes assombrar!

Certo dia, num estalo de Vieira, li esse poema, que é uma espécie de poesia da arquitetura, traçando um paralelo com a arquitetura da poesia. Assim como a arquitetura, a poesia do século XX pode ser lida como um percurso em direção à funcionalidade. E o Quintana é um desses arquitetos que passaram cerca de sessenta anos descobrindo como se ergue e se faz parar em pé esse texto, sem os andaimes da métrica, da rima, do adjetivo colocado para fechar o número de sílabas, sem a forma da forma fixa. Quintana, Bandeira, Drumond, Oswald, Mário de Andrade, Cecília, João Cabral. Esse o primeiro escrete que, até os anos cinqüenta, junto com vários outros poetas, viveu a aventura de criar o verso modernista brasileiro.
Os limites entre a prosa e a poesia, entre a frase e o verso, “os ritmos inumeráveis”, como fala Bandeira em sua “Poética”, a “Procura da poesia”, como formula Drumond. O corte, o verso longo seguido do verso curto, o equilíbrio entre o dizer e o sugerir, a reflexão contrabalançada pela imagem. Mas tudo sem excessos, sem arabescos, sem rococós, sem elementos ornamentais ou meramente decorativos. A fala das pessoas, as palavras que todo mundo usa, “A impura linguagem dos homens”, como escreve Quintana nos seu poema “Bem-aventurados”.
Nos anos cinqüenta, um momento de superespecialização funcional com Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Ronaldo Azeredo, entre outros. É a poesia concreta. Tudo no lugar certo, até o
espaço da página tem uma função e uma significação programada. O caso de Ferreira Gullar é interessante, com a sua saída do concretismo e a volta ao verso modernista na década de sessenta e na sua poesia até hoje. Da super-funcionalidade à funcionalidade.
A geração desbunde nos anos setenta, Leminski, os que vieram depois e receberam (recebemos) de mão beijada essa tradição toda que construiu, desconstruiu, reconstruiu a arquitetura do discurso poético na nossa língua.
Voltando ao Quintana. A professora Tânia Carvalhal, que sempre teve uma leitura muito atenta e sensível do texto poético, chama a atenção, num prefácio à edição de uma das antologias do Mário, para um dado importante no aprendizado poético desse aprendiz de feiticeiro. Quintana publicou primeiro sonetos (segundo ele para provocar e mostrar que era possível ainda usar essa forma poética em 1940) em “A rua dos cata-ventos”, seguiu pesquisando o ritmo com as suas “Canções”, partiu para o poema em prosa no “Sapato florido”, exercitou a quadra no “Espelho mágico”. Mas foi na experiência de escrever e publicar poemas em jornal (diariamente!) que a sua poesia encontrou outros elementos não estritamente literários que redimensionaram o seu verso. Ele mesmo já antecipava isso em “Comunhão”, poema em prosa do “Sapato florido”, lançado em 1947.



Comunhão

Os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem
os pequenos anúncios de jornais.

O contato com o leitor não especializado, o ambiente de discurso jornalístico, tudo isso trouxe para o seu verso elementos que contribuíram para que fizesse uma espécie de síntese da poesia modernista que aprendemos a reconhecer como de Quintana. Comunicação direta, pensamentos, anotações, haicais, poemas de um, dois versos, liberdade de tamanhos e formas. Leminski fala de algo semelhante quando se refere ao que aprendeu na publicidade, como redator que foi, e que acabou sendo um elemento que modificou a sua poesia. “Interlocutor não se escolhe. É esse que está aí na sua frente e você tem que achar um jeito de falar com ele”. O fato de estar criando para um leitor literato ou para um leitor de jornal, mais ainda para um consumidor que pode ser qualquer um, muda o jogo da criação do texto. É para isso que, com outras palavras, a Tânia Carvalhal apontou. A partir de um certo momento, os poemas de Quintana foram sendo criados para ser lidos no Correio do Povo. Ou seja, pelo povo. Essa situação trouxe uma riqueza e caminhos interessantíssimos para um poeta explorar. Como se vai do culto ao popular? Quintana faz um troca, leva um pouco da sua erudição e recebe de volta a palavra comum, transita da referência poética à notícia, mas não qualquer notícia. Somente aquela que carrega uma carga de lirismo oculta no aparente sensacionalismo do “noticioso”.
Como neste poema chamado de “Crônica” (transcrito abaixo), publicado no “Apontamentos de história sobrenatural”, em 1976. O próprio título já sugere a mixagem entre gêneros, entre frase e verso, entre fato e poesia, entre texto jornalístico e texto poético. Elementos novos para construir um poema em que imagens e metáforas convivem com o mais puro, ou impuro, texto jornalístico.

Crônica

SÃO PAULO, 23 - Morreu ontem o trapezista
René Bugler, internado quando o mastro em que
fazia acrobacias quebrou e ele caiu de uma
altura de 10 metros. (Do noticioso.)


A pantera é uma curva em movimento:
vai-se desenrolando como um desenho.
Mas a sua harmonia é linear como
a figura que, na sucessão de um friso,
repete-se, com o andante ritmo de um verso
num poema...
O trapezista,
no entanto,
não quer a pauta de uma corda única
e a curva do seu vôo traça geometrias no espaço,
vai e volta, mergulha, sobe, entrelaça-se
como se brincasse consigo mesma.
Só não se brinca com a imperfeição das coisas...
e a tua dança aérea, ó pobre René Bugler,
interrompeu-se:
tombaste, da altura de 10 metros, os braços abertos em cruz
e a maravilhosa curva que traçavas
imobilizada de súbito num corpo inerte.
Sim, tu estás, agora, na reta horizontalidade da morte.
A morte odeia as curvas, a morte é reta
como uma boca fechada.
Tenho até remorso de fazer-te um poema...
O poema
- o poema da tua vida
está apenas nisto,
nestas simples palavras:
“René Bugler, trapezista,
morto aos 22 anos
no exercício de sua arte”.

Chama a atenção o contraste entre o refinamento literário da intrigante imagem da pantera, definida como “uma curva em movimento” (que acaba se confundindo com a imagem do próprio verso no poema) e a manchete jornalística que encerra o texto. Um trânsito magistral entre diferentes padrões de discurso.
Esse homem culto, que foi para o jornal sem deixar de ser culto, que publica poesia, ou reflexões em torno da poesia, que não facilita a sua vida escrevendo logo crônica e deixando os poemas em casa, ou na gaveta dos editores, ou resignados com a sua condição de livros para poucos. Esse poeta que permite redesenhar a arquitetura do seu poema, sendo permeável ao dia-a-dia, ao fato e à fala do homem comum, teve dele, até mais do que dos literatos, a sua retribuição e o seu reconhecimento. Tanto que, numa pesquisa “Top of mind” no Rio Grande do Sul, foi o escritor gaúcho mais lembrado.
Mais uma vez, o Quintana leitor-de-formas-arquitetônicas dá um show de bola no poema “Escadas”. Aqui a poesia da arquitetura se confunde com a arquitetura da poesia, com elementos inclusive gráficos, pela colocação das
palavras na página, quando o leitor desce com o poeta a “escada do poema”.

Escadas

Escadas de caracol
Sempre
São misteriosas, conturbam...
Quando as desce, a gente
Se desparafusa...
Quando a gente as sobe
Se parafusa
- o peito
estreito -
o teto descendo
Descendo, descendo como nas histórias de imortal horror!
Mas de que jeito,
Mas como pode ser,
Morrer cair rolar por uma escada de parafuso?
Além disso não têm, pelo que dizem, nenhuma acústica...
Oh! não há como as escadarias daqueles antigos edifícios públicos
Para ser assassinado...
Porém não fiques tão eufórico,
- nem tudo são rosas:
Há,
No sonho das velhas casas de cômodos onde moras,
Passos que vêm subindo degrau por degrau em direção ao teu quarto
E “sabes” que é um fantasma chamejante e fosfóreo
- o corpo todo feito de inconsumíveis labaredas verdes!
O melhor
Mesmo
É fechar os olhos
E pensar numa outra coisa...
Pensa, pensa
- o quanto antes!
Naquelas pobres escadarias de madeira das casas pobres
-escurinho dos teus primeiros aconchegos...
Pensa em cascatas de risos
Escada abaixo
De crianças deixando a escola...
Pensa na escada do poema
Que tu
comigo
vens descendo
agora...
(Hoje em dia todas as escadas são para descer)
Mas não! este poema não é
Nenhum
Abrigo
Antiaéreo...
Ah, tu querias que eu te embalasse?!
Eu estava, apenas, explorando uns abismos...

Mas esse arquiteto moderno, no entanto, lamenta na arquitetura das casas de hoje a ausência dos “longos, intermináveis corredores”. Afirma, no “Arquitetura funcional”, que as casas modernas são “pobres casas sem mistério”. E pergunta: “Como pode nelas vir morar o sonho?”. Paradoxalmente, na arquitetura da sua poesia, chegou a mini-poemas, verdadeiros jks como estes:

Construção

.... o dia exato alinha os seus cubos de vidro...

Ou

A oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos...
Trago-te estas mãos vazias
Que vão tomando a forma do teu seio.

Quando o arquiteto é um poeta como Mario Quintana, mesmo num jota-haicai é possível vir morar o sonho.

A hora da Estrela Ruiz Leminski


Estrela estréia em livro, mas a poesia acompanha a sua vida desde o ventre. Tanto que o livro abre com um grande haicai escrito aos seis anos de idade: “a casa/a lua o sol/nem sempre só”. Não tem um verbo. Concisão. Tem uma criança ali naquela casa. Anoitece, amanhece. As pessoas chegam e vão embora. Agora tire a criança. Ponha qualquer ser humano. Pronto: não é assim mesmo que é a vida? Às vezes só. Àsvezes acompanhado. Como no poema Tabacaria, do Fernando Pessoa. Depois de todo aquele jorro de pensamentos do heterônimo Álvaro de Campos, aparece um amigo que o chama do outro lado da rua e o faz voltar ao mundo. Sai da solidão que quase o faz desaparecer para o convívio com o outro. E no outro ele se reconhece vivo e humano. Voltando ao haicai. Tem a casa e, por oposição, a rua. A lua e, por oposição, o sol. Estar só e, por oposição, estar acompanhado. Como o brilho de uma estrela: vai e vem. Estrela lida no seu livro com os contrários e não tenta harmonizá-los. Não os trata como complementares. Alegria é alegria e dor é dor. Essa sinceridade aflora em todo o livro. E talvez por isso pulse tão forte uma pessoa por trás dos versos. Uma pessoa jovem, viva, crescendo, aprendendo,vibrando, criando. O livro se organiza assim mesmo: dos poemas da infância, passando pelos da adolescência até chegarem aos da sua vida de vinte e poucos anos. E olha só no que deu hoje aquela menina lá do início: “A noite vem como um virar de página/Dentro da madrugada cresce o silêncio/dos que não têm fala/Contagem regressiva dos capítulos:/o tempo se arrasta para quem/não tem história/Me afundo num livro/como quem muda de vida/Mudo o enredo da minha memória/apagando com letras as minhas feridas”. Sim, feridas. Não tem outro nome. Não tem ironia. Sem medo de falar de sofrer. Isso soa novo. Não é o sofrimento poético chavão, nem o poema que paira acima das dores. É a dor na exata medida. Nem maior nem menor do que é. Como também exato é esse poema. Não tem nada sobrando. As imagens se harmonizam com os sons, os sentimentos e as idéias. Em Cupido: cuspido, escarrado também tem os poemas irônicos, os alegres, os reflexivos. Tem os curtos, os longos, os com efeitos gráficos, os sonoros, vários haicais. Tem os que beiram a prosa e os que beiram a letra de música. Tem correndo por baixo de tudo uma poeta-leitora dialogando com vários fazeres poéticos contemporâneos e acrescentando a eles as suas próprias descobertas.

As conquistas da Semana de Arte Moderna já estão esgotadas?




Uma vez fui convidado pela TVE aqui em Porto Alegre para entrevistar o Décio Pignatari. Relatei a ele uma das cartas do poeta Paulo Leminski a Régis Bonvincino. Nessa carta, Leminski fala de um episódio que denominou como uma transmissão da lâmpada. A expressão remete a quando um mestre diz algo para os discípulos que funciona como um insight, cai a ficha, ao mesmo tempo em que se cria um novo desafio. Aconteceu quando Paulo e outros jovens poetas estavam reunidos com Pignatari, que lhes disse algo como “o concretismo tem que acabar; e só quem poderia fazer isso eram eles”. Leminski ficou um tempo pensando em como poderia fazer tal empreitada e concluiu algumas coisas. A primeira é que ele era mais concretista que os concretos, pois já nasceu concretista, começou a escrever já sendo, enquanto os “patriarcas” do movimento tiveram que chegar até essa forma. A segunda é que ele era várias outras coisas que os concretistas não eram, sobretudo, no que toca aos trotskismo e à contracultura. Então, quando Leminski deixou que essa duas linhas políticas e comportamentais de sua geração entrassem na sua poesia, fez um poema que superava, que não era mais poesia concreta, embora nascida nela, como consciência de linguagem e invenção com a palavra. Perguntei na entrevista ao Décio no que ele pensava quando disse aquilo para os jovens poetas. Ele queria dizer que estavam, a academia, as universidades, na época, tentando catalogar, “matar”, encontrar as leis, as características da poesia concreta e transformá-la num ismo, o concretismo. Na sua visão, nem ele nem os outros colegas de movimento queriam isso. Nunca fizeram um concretismo e sim a poesia concreta. E acrescentou: e o que é a poesia concreta? É uma pergunta: o que é a poesia? E é essa pergunta que devemos fazer a cada vez que escrevermos um poema. E a cada vez devemos dar uma resposta diferente. Há um vício escolar de querer encontrar nos autores e nas escolas literárias leis. Mas se olharmos os grandes poetas da primeira fase do modernismo brasileiro, todos são muito diferentes. A poesia de Oswald não se parece com a do Mário de Andrade, que por sua vez não se parece com a de Manuel Bandeira e, seguindo, não se parece com a de Drummond, que não se parece com a de Vinícius, que é diferente da de Cecília Meireles, que difere da de Quintana. Creio que sejam esses os principais disso que se convencionou chamar de modernismo. O que os une? A liberdade de criar a sua própria poesia. Não é outro o sentido do verso final da Poética do Manuel Bandeira: “não quero mais saber do lirismo que não é libertação”. João Cabral escreve num dos ensaios do seu livro Prosa sobre o momento especial que viveram esses poetas, principalmente os da década de trinta, pois puderam fazer dos seus critérios pessoais a sua estética. Mas isso não é apenas um privilégio de um momento. É a condição para que uma poesia se estabeleça entre tantas. Camões escreveu sonetos, uma forma fixa muito praticada também na sua época. Mas o soneto dele tem marcas próprias, que ultrapassam a forma e mesmo transformam a forma. A inteligência, a visão de mundo, o engenho e a arte que eram só dele fazem de algo aparentemente igual, diferente. Se pensarmos que a maior conquista da Semana de 22 é a liberdade de criar, não está nem nunca estará esgotada. Outro ponto: os poetas modernistas morreram ontem. Até poucos anos estavam entre nós, produzindo, lançando livros contemporâneos. Não se pode pensar em modernismo como algo que começa em vinte e termina na década de cinqüenta. Pouco se tem falado sobre a poesia de Ferreira Gullar. Estou relendo tudo o que ele escreveu. O Poema Sujo é algo extremamente pessoal e intransferível. Longo, sensível, político, filosófico, apaixonado, memorialista, criativo, com vários ritmos, imagens. Não tem muito parentesco com o que se fez antes na nossa poesia. E depois, nos livros mais recentes, pérolas desse poema-pensameto, de verso magro que o Gullar realiza como só ele mesmo. A virada de Chacal, relançada numa linda edição da CosacNaify, no Belvedere. Ali, tudo muda. Mas mudou, porque Chacal teve a coragem de ser ele mesmo. Isso é 22? Não. Isso é a arte. Quem não encarar a si mesmo não faz nada que acrescente. E encarar a si mesmo é botar na balança o que aprendeu com quem veio antes, mas colocar na roda também o que aprendeu consigo mesmo. Podemos ver no século vinte e começo deste século dois movimentos que chamo de desliteralização e de literalização do poema. A desliteralização é a aproximação com a fala, distanciando da linguagem tida como literária: termos coloquiais, gírias, ritmos mais centrados no espaço, na quebra, do que na métrica, temas cotidianos, brasilidade, urbanidade, ruptura com cânones, invenção. A literalização é o contrário: uso de termos mais raros, diálogo com formas fixas, clássicas, temas elevados, filosóficos, sombrios, reverência à tradição. Esses dois movimentos existem e existiram simultaneamente em todas as décadas, inclusive como fases de um mesmo autor. Em determinados períodos, um se sobrepõe ao outro, aparentemente ganha a briga, mas se esgota na luta, enquanto o outro se recupera. Isso porque a arte tem que seguir a estranhar. O que era novo fica conhecido, vira truque, então um novo novo, que pode ser até o velho, já se ergue. Na seqüência, os mesmos elementos reordenados, dispostos de outra forma, renascem. E tem as gerações que se sucedem. Cada uma tenta encontrar uma nova linguagem para a sua nova visão de mundo. Não é de grande utilidade querer dar por encerrado nada em arte. Querer formar consensos, grupelhos, leis, só serve para a auto-afirmação temporária, mas a obra, meus amigos, como disse o Gullar, é que vai sobreviver ou não a nós todos. Sobreviver à politicagem, aos amigos dos editores, aos jornalistas e suas turmas, aos cupinchas, aos equivocados e aos lúcidos.

Face a face com Cecília

RETRATO
(Cecília Meireles)

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Ver a si mesmo. É mais difícil das tarefas. Por fora, não nos vemos de todo. Os outros nos veem mais do que nos vemos. Por dentro, passamos a vida tentando enxergar e sempre tem mais vida e mais mistério. Cecília tateia em toda sua poesia pelo espaço íntimo com uma delicadeza que é difícil encontrar um par na poesia brasileira. E o verso/faca: "eu não dei por esta mudança". Está em Viagem Vaga Música, edição Nova Fronteira.

O mote da morte

O QUE PASSOU, PASSOU?
(Paulo Leminski)

Antigamente, se morria.
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morri com muito prazer,
que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço ao vento, um suspiro e pronto,
lá se ia o defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava tudo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal-curado.
Tinha coisas que tem que morrer,
tinha coisas que tem que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
deixar tudo para os filhos
e virar fotografia?
Ninguém vivia para sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Mas ninguém tem culpa.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi ao vento.
Não tem o que reclamar.
Vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.


Versos imortais sobre a morte. Essa passagem do tempo que se passa pelo poema. Esse mundo que se perdeu. Um tempo em que as respostas toscas para as coisas atenuavam o sofrimento. Deixavam tudo mais ou menos. Até chegar à criônica, que é a prática de congelar a pessoa que morreu na esperança de que no futuro se descubra a cura para a doença que a matou. Essa doença moderna da vida crônica. E tudo num estilo vibrante, solto, profundo, irônico, com a simplicidade dos gênios. Está no livro da coleção Melhores Poemas, editora Global, Paulo Leminski, seleção de Fred Góes e Álvaro Lins.

Poema ao vivo

ÁBSONO
(Luis Turiba)

sambo espalhafatosamente
para dentro
como quem não quer nada
sambo parado
no espaço do meu corpo
com minhas víceras
meus testículos
meus intestinos
minhas moléculas
minhas cartilagens
minhas células em permanente renovação rumo à morte
meus glóbulos brancos vermelhos desbotados
meus neurônios
minha aura vital
minhas correntes sangüíneas
no trânsito intenso e interno de veias e vácuos
sambo com meus buracos
descalço
nu como nasci
meio preso meio solto
ábsono & absorto
quase com sono
sambo meio grogue
minha apoteose
é iogue
de mãos no bolso


Vi e ouvi esse poema ao vivo, sendo falado pelo Turiba em Brasília. A interpretação, o gestual que estão sugeridos no corpo do texto são encarnados maravilosamente pelo corpo do poeta. Mas como ele não está aqui, em video, repare no final apoteótico e silencioso do iogue/grogue sambando de mãos no bolso. Está no livro Bala, de Luis Turiba, editora P555.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A feliz ignorância

Vivemos a época da pesquisa de opinião. Na política, os institutos medem a aprovação ou reprovação dos governos, a popularidade, as tendências eleitorais. No marketing, pesquisam o que os consumidores querem. Nas transmissões dos jogos, nos programas esportivos, sempre tem uma pergunta para saber o que as pessoas acham. Tudo isso parte de um pressuposto que coloca uma certa autonomia da opinião pessoal. É uma visão que parece supor que todos já saibam de antemão tudo. Que todos têm em si os elementos para avaliar e dizer o que acham. Sem a mínima humildade. Pouca gente reconhece a sua ignorância diante de alguma coisa. Afinal, se perguntaram para mim, pensam, estão supondo que eu saiba ou tenha algo importante a dizer. Vou falar então. Não vou dar o vexame de dizer: meu, pergunta pra quem sabe mais do que eu, pra quem é especialista, estudioso, sei lá. Na contramão desse narcisismo coletivo contemporâneo, é sempre bom ler e reler pessoas que sabem muito mais do que a gente. Em vez de falar, ouvir quem merece ser escutado. Pessoas que desfazem o que pensávamos, que mostram que estávamos errados na nossa avaliação, que nos revelam mais do que enxergávamos.
Essa agradável e feliz sensação de ignorância, eu estou tendo ao ler Coisas e anjos de Rilke, livro do poeta, tradutor e ensaísta Augusto de Campos. Todo brasileiro deveria uma vez por dia agradecer aos céus por existir entre nós Augusto. Ele vem durante cinqüenta anos ensinando a ler autores da maior importância. Traduz poesia, coisa que poucos conseguem fazer bem. Mostra a criatividade da linguagem de poetas das mais diversas línguas e ainda “transcria”, como ele chama a recriação dos poemas estrangeiros na nossa língua. Como se não bastasse, pinça, aponta, acrescenta a todo momento algum viés novo de observação. Foi assim também no livro sobre Rilke. Sempre tive uma certa barreira para ler esse grande poeta da língua alemã. O tom mais metafísico e até místico que acabou chegando como sendo todo o Rilke não me atraía muito. Mas Augusto vai buscar uma série de poemas que chamou de “poemas-coisa” do autor. Neles, há uma objetividade, um eu que se ausenta para falar do que está do lado de fora, que me trouxeram um poeta novo no velho Rilke. Como esse terrível e belo O Rei Leproso:

“A lepra se instalou em sua fronte,/sob a coroa, e toldou o horizonte,/e ele, como que o rei de todo o horror/que atingiu os demais. Estes, sem cor/contemplam fixamente o dom sombrio./O rei, como num espartilho, esguio,/espera que alguém o trespasse,/mas ninguém o faria;/como se mais ileso ele ficasse/com o acréscimo da honraria”.

E mais tantas outras poesias que eu teria perdido se achasse que já sabia o que era Rilke. Se não me dispusesse a conhecer o que Augusto de Campos viu em Rilke que eu até então não tinha visto.

Sem essa de expulsar o poeta da capital da república

As cidades se constroem pelo improviso. Como a vida. Começam num lugar, normalmente por motivos econômicos. Perto do rio, perto do mar. Junto a uma mina. E vão crescendo, vivas, construídas dia a dia por aqueles que vão morrendo ao longo de anos e anos. Não foi assim com Brasília. A capital do Brasil nasceu de uma idéia, de um plano. Ao contrário de Nero, que teve o poder de destruir uma cidade, Oscar Niemeyer recebeu o privilégio de pensar uma cidade do zero. Algo totalmente anti-histórico. O lugar do poder. Como se o poder no Brasil pudesse ficar num lugar com uma história própria, alheia, longe da muvuca, da gentalha, de quem paga a conta. No fundo, uma idéia de reino encantado. Ali, tudo seria perfeito. Seria, se não aparecesse um poeta. Nicolas Behr, o poeta marginal de Brasília. Chegou na cidade aos dez anos. Nasceu em Cuiabá. Na capital federal, lançou diversos livros, todos publicados de forma independente. Alguns títulos já revelam o tom da conversa: Chá com porrada, Parto do dia, Brasiléia desvairada. Se Niemeyer e Lúcio Costa construíram Brasília, Nicolas Behr vem desconstruindo-a durante esses anos todos. Um exemplo: “bem, o sr. já nos mostrou/os blocos, as quadras,/os eixos, os palácios/ será que dava pro sr./nos mostrar a cidade/propriamente dita?”.

Outro: “enfim, era preciso saber/quanto cimento será gasto/numa ponte por onde ninguém/passará de mãos dadas”. Da pedra, à pedrada na política: “os três poderes/são um só:/o deles”. Os primeiros poemas de Nicolas Behr que ouvi foram da boca de outro poeta que também publicou livro independente, Mario Pirata. Na Roda de Poesia, nos anos oitenta, aqui em Porto Alegre, Mario falava vários hits poéticos da época, extraídos dos livros de Nicolas Behr: “senhores turistas/eu gostaria de frisar/mais uma vez/que nestes blocos de apartamentos/moram inclusive pessoas normais”. Agora, parte dessa produção de poemas que levou inclusive Nicolas Behr para a cadeia em 1978, preso pelo DOPS por “porte de material pornográfico”, está reunida no livro Laranja Seleta, edição da Língua Geral. Poemas curtos, longos, recitáveis, outros para serem lidos em silêncio. Irônicos, sérios, críticos, bem-humorados, também mal-humorados. Mas sempre com o gingado, a inteligência e o pique dessa geração de poetas, como Chacal, Francisco Alvim, Leminski, entre outros, que tem, antes de mais nada, um grande mérito: ser proibido fazer poesia chata. Não espere do livro do Nicolas Behr o papo furado, as imagens bem comportadas, a dor literária, o ar de profundo. Abra e deixe que o livro se inaugure em você, como neste poema: “quando será inaugurada em mim/esta cidade?”.

Mãos delicadas

NUM LUGAR AO QUAL EU NUNCA VIAJEI
(E.E. Cummings)

num lugar ao qual eu nunca viajei, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me abarcam,
ou que eu não posso tocar porque estão muito próximas

o teu mais leve olhar me abrirá facilmente
embora eu me tenha fechado como dedos,
tu sempre me abres pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando habilmente, misteriosamente) sua primeira rosa

ou se teu desejo for de fechar-me, eu e
minha vida nos fecharemos graciosamente, repentinamente,
como quando o coração dessa flor imagina
a neve caindo cuidadosamente por toda a parte;

nada que possamos perceber neste mundo se iguala
à força da tua intensa fragilidade: cuja textura
me compele com a cor de seus países,
retratando a morte e o sempre a cada suspiro

(eu não sei o que é essa coisa tua que fecha
e abre; somente algo em mim entende
que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão delicadas

Guardei na memória esse último verso do poema do Cummings desde que o ouvi num filme de Woody Allen. O personagem manda o livro de presente para a mulher que ele estava a fim. Claro, ela não resistiu. A bonita imprecisão do sentimento comparado a uma rosa que se abre ou se fecha. Conhecemos talvez mais desse poeta americano do século XX pelas suas inovações de quebra de verso, de corte de palavras e sílabas, de uso de parênteses, de sentido construído no espaço da página. Mas aí está ele, nessa tradução do Gilson de Azevedo, mostrando algo mais do que habitualmente se pensa quando se fala de Cummings. Sem abrir mão de um parêntese, ele nos revela a força da fragilidade.

domingo, 6 de julho de 2008

Arnaldo falou e não disse

(Arnaldo Antunes)

Segredo não se diz.
Mentira não se diz.
O que não se sabe não se diz.
O que não se pode dizer não se diz.
Palavrão não se diz.
Coisa com coisa não se diz.
Armazém não se diz.

Armazém!
Armazém!


As frases-feitas, incontestáveis, todas sendo ditas. O poema concorda, em silêncio, talvez um pouco contido, sem argumentos para desfazê-las. Até que uma brecha, uma frase vulnerável se apresenta. Como assim armazém não se diz? Armazém, armazém! - grita o poema aliviado. Está no livro Psia, do Arnaldo.

Meu irmão camarada

TUDO É O TODO
(Silvestrin Roberto)

tudo é o Todo
e o seu significado
tanto sofrimento
deve ter sido planejado
o Grande Plano da Criação
sofrer e sorrir
sofrer para crer
sofrer até cair
sem esquecer o massacre
de milhares e milhares
de familiares do crew
numa só bocada da baleia
eia vã filosofia
eia letra fria
eia razão mais sem razão
diz aí, estrela guia
fala aí, ô da profecia
desembucha, escuridão


Poemas mal-humorados no maior bom humor. Assim é grande parte da poesia do meu irmão Roberto, no seu livro Canção das coisas inanimadas, edição da ameopoema. Como nesse acima, que esbanja sonoridades, baleia, eia, eia, milhares de familiares. Além de frases-feitas desfeitas, sofrer e sorrir, sofrer para crer, sofrer até cair. E no final, o genial desembucha, escuridão! Se não há respostas, pelo menos, há a poesia.

As imagens do aconchego

POEMAS DA AMIGA (VIII)
(Mário de Andrade)

Gosto de estar a teu lado,
Sem brilho.
Tua presença é uma carne de peixe,
De resistência mansa e um branco
Ecoando azuis profundos.

Eu tenho liberdade em ti.
Anoiteço feito um bairro,
Sem brilho algum.

Estamos no interior de uma asa
Que fechou.


Duas das séries mais bonitas sobre o relancionamento amoroso, para mim, foram escritas por Mário de Andrade. São os Poemas da Negra e os Poemas da Amiga. Poucos versos taduziram o aconchego do amor como Eu tenho liberdade em ti. E mais todas as imagens que vão montando o clima e fazem a gente ir se aninhando no poema. Impossível ler e não ficar com saudade de quem se ama.

De repente, a vida num livro de poemas

VELHOS AMIGOS
(Escobar Nogueira)

Quando formos amigos de novo,
te darei uma volta na minha bicicleta
e repartiremos a bergamota
sem contar os gomos.
Num vidro de compota,
conservaremos nossas bolitas
como frutas cristalizadas,
pois seremos, novamente, sócios e amigos.

Quando formos amigos de novo,
vou gritar "Já!"
e apostaremos corrida
do portão da escola
à porta de nossas casas,
e será mulher do padre
quem chegar atrás,
pois seremos, novamente, vizinhos e amigos.

Quando formos amigos de novo
e tu faltares às aulas,
assinarei teu nome nos trabalhos,
te emprestarei meus cadernos
e, no dia da prova,
te passarei a resposta na borracha,
pois seremos, novamente, colegas e amigos.

Quando formos amigos de novo,
terão que bater em nós dois
para bater em um de nós,
e se minha briga for contigo,
como se nada tivesse ocorrido,
voltaremos a brincar,
pois seremos, outra vez, crianças e amigos.


A amizade talvez seja o mais alto dos sentimentos humanos. E é na infância que ela se revela com toda sua força. Crescer e continuar tendo amigos é uma prova difícil. E não há um grande amor sem uma grande amizade. Então, colocar isso tudo num poema, que, sabiamente, busca lá na infância o sentido da amizade, em contraponto com a vida madura, é um achado e tanto do poeta Escobar Nogueira. Um novo amigo que descobri em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul. Seu livro se chama Curta-metragem, edição da Ibis Libris.

Um poeta na guerra

SAN MARTINO DEL CARSO
(Giuseppe Ungaretti)

Destas casas
nada sobrou
senão alguns
pedaços de muro

De quantos
me foram próximos
nada sobrou
nem tanto

No coração porém
nenhum cruz me falta

É o meu coração
a região mais destroçada


O diário de um soldado na guerra, em 1916. Só que o soldado é um poeta. Versos curtos, poucas imagens. Poesia econômica, seca. Não tem palavras sobrando. Emociona porque é certeira. Um livro cheio de belas tristezas, chamado A Alegria, de Giuesepe Ungaretti. Edição da Record, com tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti.

E com vocês, Ricardo Portugal

E COM VOCÊS O POETA
(Ricardo Portugal)

O poeta mata a sede com xarope
rabisca versinhos rebuscados a respeito
de sua busca na folha de ofício
timbrada serviço público federal o poeta
é de inutilidade pública e notória
Poderia ser o rei da oratória dando aquela banda
pela história e/ou a bunda em promissória
inventariando rimas gloriosas
enquanto os poderes constituídos e
enquanto os poderes constituídos

O poeta poderia ser ovacionado em carro aberto
mesmo fechado pra balanço período de descanso
estação de águas pra tirar aquele ranço aquelas mágoas
do seu coração bichinho sentimental
O poeta poderia ir às massas tomar veneno rasgar
os pulsos na tela da televisão
pra todo o mundo todo o mundo chorar
e todo o mundo todo o mundo sambar
e todo o mundo enquanto os poderes constituídos
são os poderes constituídos constituídos

O poeta mata a sede com cachaça
óleo de linhaça olho de lince no lance
pois o poeta poderia discursar na academia
decantar suas dores santas através das horas vagas
que lhe deixa a próprio cargo a função ou profissão
de fé ou fado e nesta terra tudo der
O poeta chama um táxi sai atrás de sax sexo
drogas rock and roll e volta grogue
só penas nisso o poeta ama a américa
a métrica amélia ou zélia sua amásia
manca banca o bobo romântico ou dom juan
e a justiça inapelável dos maridos traídos
da tríade sagrada dos poderes constituídos
e dos poderes constituídos

Atos falhos os temos aos montes
muitos e muito a contento
Yes nós temos símbolos fálicos
às pencas bananas avencas
às dezenas de centenas de milhares de
poderes constituídos de poderes
constituídos além disso tantos
poderes constituídos


Esse é um dos poemas que sintetizam uma época. Virada dos anos setenta para os oitenta. Cuspir fora o discurso político. O jovem poeta, com linguagem de apresentador de tevê, apresentando a si mesmo. Diante da tradição, da imagem que se faz e se fez do poeta ao longo dos séculos. Tudo isso no meio da rua, das incertezas e das certezas precárias de quem tem um pouco mais de vinte anos, mas carrega o peso de quem já fazia uma poesia madura, que sobreviveria vinte anos a si mesma e certamente ultrapassará, viva, a vida do próprio autor. Livro De Passagens, do grande Portugal, edição da ameopoema.

O cine-poema de Li Po

ROSA VERMELHA
(Li Po)

A esposa do guerreiro está sentada à janela.
De coração aflito, borda uma rosa branca numa almofada de seda.
Picou-se no dedo! Seu sangue corre na rosa branca, que se torna vermelha.
Seu pensamento vai ter com seu amado, que está na guerra
e cujo sangue tinge, talvez, a neve de vermelho.
Ouve o galope de um cavalo... Chega, enfim, seu amado?
É apenas o coração que lhe salta com força no peito...
Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata
as lágrimas que cercam a rosa vermelha.


Atenção, leitores que porventura estejam comigo nesse cinema. O poeta que escreveu essa maravilha viveu de 701 a 762, na China. E essa tradução precisa é da grande Cecília Meireles. Repare no jogo entre branco e vermelho, jogado duas vezes, cada uma trazendo mais dramaticidade a outra. Repare na mixagem sonora do galope do cavalo com a batida do coração. Repare no final, a prata das lágrimas, num movimento de fusão de imagens. Quer mais? Porcure o livro Poemas Chineses, Li Po e Tu Fu, todo ele com traduções da Cecília.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A precisão de Alice Ruiz

hoje tem praia
até estando no Himalaia

tem Moonlight Serenade
completamente up-to-made

hoje tem lua
à luz do dia

tem desfile
carnaval
mesmo na rua vazia

até no nada
hoje tem tudo

e é só hoje


Palavras precisas, assim como as emoções. Sim, mesmo as emoções, imprecisas por natureza, se harmonizam na poesia de Alice Ruiz. O falar claro dela é mais um contracenso. Como pode a profundidade ser trazida à tona, para a superfície, examinada à luz do dia? E tem sempre uma puxada de tapete nas idéias, nos sentimentos, com as palavras virando tudo do avesso. Hoje tem poesia de Alice Ruiz, como essa aí acima, do livro dela, Vice-versos. E é só hoje.

O canto mudo de Chico César

53
(Chico César)

poemusa não se esconda
atrás da onda a onda
e a noite atrás do dia
se há coisas que não via
e agora clarebeleza
realize a realeza
press-release nonada
arremate a charada
armada pelo universo
vem ser deus onde o disperso
quis fazer sua morada


Uma boa surpresa foi ler Cantáteis, livro do cantor e compositor Chico César. Seus poemas, como o acima, têm uma estrutura regular, ancorada no ritmo. Mesmo as manchas dos textos, todos mais ou menos do mesmo tamanho, passam uma idéia de regularidade. Mas a rapidez com que as idéias, imagens e jogos de palavras se seguem acaba abrindo o texto que poderia ficar fechado. Um pouco de nonsense terminando poemas ou como uma espécie de transição dentro do discurso cria um clima interessante e renovado. E versos legais como o que fecha o poema e merece replay: "vem ser deus onde o disperso/quis fazer sua morada".

Borges, o poeta

UN SÁBADO
(Jorge Luis Borges)

Un hombre ciego en una casa hueca
fatiga ciertos limitados rumbos
y toca las paredes que se alargan
y el cristal de las puertas interiores
y los ásperos lomos de los libros
vedados a su amor y la apagada
platería que fue de los mayores
y los grifos del agua y las molduras
y unas vagas monedas y la llave.
Está solo y no ay nadie en el espejo.
Ir y venir. La mano roza el borde
del primer anaquel. Sin proponérselo,
se ha tendido en la cama solitaria
y siente que los actos que ejecuta
interminablemente en su crepúsculo
obedecen a un juego que no entiende
y que dirige un dios indescifrable.
En voz alta repite y cadenciosa
fragmentos de los clásicos y ensaya
variaciones de verbos y de epitetos
y bien o mal escribe este poema.


Pode haver um poema mais triste e mais bonito do que esse? E ainda terminar com uma esperança, uma afirmação da vida. Essa que é um jogo que não se entende, comandada por um deus indecifável. Em Borges, as imagens não são construídas como recurso. Fazem parte da cena. O poema é um filme. A câmera nos mostra tudo o que o cego vê sem ver. Mas nós vemos tudo o que ele conta. Há dois pontos de vista, um interno e um externo. Um luxo para um cego. Está só e não há nada no espelho. Quem não está?

Os poemas sombrios de Tim Burton

A MENINA TRASH
(Tim Burton)

Dela ninguém se esquecerá:
A cara suja de carvão,
A pele de puro cascão,
E uma catinga de gambá.

Talvez não seja difícil saber a resposta
Por que a Menina Trash vivia tão triste:
É que nunca saía do fundo de uma fossa.

Houve um único breve momento de glória
Em toda sua biografia:
Foi quando Stan, o gari, pediu a mão da guria.
O lixo do bairro era ele quem recolhia.

Entretano antes que o consórcio
Virasse sério compromisso,
Ela tomou chá de sumiço,
Pulando num triturador de lixo.


Tim Burton é um cineasta que vai muito além do naturalismo do cinema americano. Vai além também da previsível fantasia do cinema americano. Herdeiro de Edgar Allan Poe, de quem é fã declarado, ele é especialista em transitar por universos sombrios, como em Sweeney Tood, o barbeiro demoníaco da rua Fleet, seu excelente e mais recente filme. Também lançou um curioso livro de poesias para crianças chamado O triste fim do menino ostra e outras histórias. As ótimas ilustrações são dele mesmo. O insólito e o cruel, com toques de ironia, andam lado a lado. Um artista refinado como Tim só poderia mesmo ser poeta.

O equilíbrio de João Angelo

CIDADE MACOTA
(João Angelo Salavadori)

é tudo tão provisório
um dia
todos esses prédios enormes
justaposições de cenários hollywoodianos
não vão mais estar aqui

em algum lugar
terminam essas infindáveis
galerias
limites da representação digital
como em videogame?

(imagino montanhas de cacos triturados
o tempo comprimido, quase pó)

aviões pousam obedientemente, um após
outro,
quase em silêncio

ambulâncias fazem o menor estardalhaço
possível

dentro dos trens, cabeças pendem
em sono larval
há um cansaço recíproco e conformado
como se todos tivessem nadado durante horas
em água densa

no final do dia
a febre digital
das transferências bancárias
produz um surdo ruído de fundo
o produto interno
escorre por entre os dedos dos camelôs
mancha macacões de operários
é um remoto desconforto
nos ombros do executivo preso no trânsito


João é um dos poetas que mais gosto de ler. Seu texto apresenta um raro equilíbrio entre idéia, ritmo, imagens, comunicabilidade e vocabulário. Com muita classe, ele usa também os adjetivos: "um remoto desconforto", "um surdo ruído", "sono larval". Do início ao fim do poema, as imagens se sucedem, uma melhor do que a outra, e vão compondo o cenário da Cidade Macota, que é como o narrador de Macunaíma chama a cidade de São Paulo. Há um tom de fala sempre elegante. Não é um poema aos gritos. Mas é uma voz firme. Essa maravilha está no livro Teleférico, que eu e o Alexandre Brito tivemos a honra e o prazer de editar pela AMEOPOEMA.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Gente de névoa!

Nem tudo é leve na poesia japonesa. Na literatura brasileira dos anos 80 para cá, muito se escreveu e se falou sobre o haicai. Esse poema breve, de apenas 17 sílabas, que teve seu apogeu no Japão do século XVII com o poeta Bashô, foi incorporado à produção de vários autores brasileiros: Guilherme de Almeida, Mario Quintana, Millôr Fernandes, Paulo Leminski e muitos outros. Na antologia 100 haicaístas brasileiros, tem haicai até do Erico Verissimo. De todas as diferentes práticas do gênero entre nós, uma característica parece unir todas elas: a ausência do eu. O haicai busca captar um momento, sem interferência do eu poético, tão predominante na nossa tradição. É um exercício de objetividade. Sem o eu, vem também a ausência de sentimentalismo, de discursividade, de nóia. Mas existe uma outra forma poética, o tanka, surgida no Japão há mais de mil anos. O tanka também é um poema curto, só que um pouco maior do que o haicai. Tem 31 sílabas. Um dos poetas japoneses da era moderna que praticou o tanka, lido até hoje no Japão, é Takuboku Ishikawa. Viveu apenas 27 anos, de 1885 a 1912. Lançou um único livro em vida: Um punhado de areia. Seus poemas foram traduzidos no Brasil por Masuo Yamaki e Paulo Colina no livro Tankas, hoje editado por Massao Ohno Editor. Quem já leu um pouco de haicai vai experimentar com Takoboku um outro tipo de poesia japonesa. Seus textos também são curtos, imagéticos, sem muita discursividade. Mas são recheados de conteúdo pessoal. Mais do que isso: na maioria das vezes são profundamente melancólicos. Pequenos recortes da sua vida, cenas, comentários. É também como o haicai o registro de um momento. Mas não apenas um momento externo. É uma fotografia interna. “Triste o coração infantil que não chora:/nem repreendendo, nem batendo/(também fui assim).” É cinema. Tem a cena à nossa frente. Vemos o menino, sofremos com ele e, de repente, o menino se confunde com o autor. Há um eu que se funde com o que está sendo narrado. “O trem. Nem sei por que o tomei./Desci. Mas não há/para onde ir.” De novo o cinema. Há uma tomada inicial do trem. Corta para o rosto do personagem/narrador. Corta para ele descendo. E o último verso é uma cacetada reflexiva. Lembrando: na língua dos japas, isso tudo foi feito com apenas 31 sílabas! “Emprestei dinheiro de quem me toma/por um poeta incapaz/de tarefas práticas.” Uma anotação, ao mesmo tempo um relato de um fato e um triste e irônico comentário. Takuboku também era simpatizante do pensamento revolucionário russo. Nadava contra a corrente do governo imperial japonês, que queria ver os socialistas longe do Japão. “Palavras que a criança/aos 5 anos gravou nos ouvidos:/ trabalhador, revolução...” Agora uma seqüência fechada de cenas de mãos e um cometário arrasador no final: “Mãos que se aproximam,/ apertam e se perdem./Gente de névoa!” Outro dia encontrei um amigo que disse ser esse o poema que estava guiando a sua vida. Não queria mais saber de gente de névoa. Já um que marcou a minha vida é este outro do Takuboku: “Mostrar um milagre qualquer/e desaparecer/enquanto ainda estiverem surpresos.”

Dois dedos de poesia

Tem um poeta americano, Ezra Pound, que pinçou três linhas criativas dentro da história da poesia. Uma é a dos poemas que trabalham fortemente com o som. Outra é a dos que trabalham as imagens. E a terceira é a dos que acentuam mais com o significado. Essas três linhas podem conviver num mesmo poema. A observação do Pound é mais no sentido de haver em determinados poetas um traço dominante. Por exemplo, a poesia do Millôr Fernandes é centrada na sacada, na idéia, mesmo que quase sempre use como recurso criativo a sonoridade: “E tudo vai passar./Como passaram Tito, Caio, Baltazar./Todo grande homem, falso ou verdadeiro./Mas isso, só lá no fim do ano./Ainda estamos em janeiro”. Ou neste: “Por fim se descobriu./O soldado desconhecido/é um civil”. No dois, aquele pensador irônico que está sempre por baixo de todo texto do Millôr. No primeiro, um sarro com a mania de se tentar o consolo para os infortúnios usando a desculpa de que tudo passa. No segundo, a sacada: se o soldado é desconhecido, como se saberá se era um soldado mesmo? Drummond é outro poeta que aborda temas, pensa sobre eles, examina-os por vários ângulos. É um pensador em verso, não em prosa. É nessa linha do poema-pensamento que vem desenvolvendo sua poesia Jose Ronaldo Viega Alves. Conheci seu primeiro poema na coluna da Zero Hora, Almanaque. Cheirou a coisa boa. Consegui o telefone dele e liguei, para Sant’ana do Livramento. Desde então, tenho recebido seus livros. O último que chegou foi Vitrais, publicado pela Opção2, de Porto Alegre. Vamos a um pequeno, imagético e sonoro, mas que dá o que pensar: “Bonsais/sonham/demais/com pequeninos/pássaros/que não/irão/ver/pousar/jamais”. Delicadíssimo. Quase uma palavrinha por verso. Um poeminha-bonsai. E mais um ponto para o Jose Ronaldo: a contemporaneidade. Pegar na paisagem doméstica de hoje o bonsai e pensar sobre ele. Neste outro, o poeta-pensador vai lá na raiz da filosofia ocidental encontrar Platão e Aristóteles: “Tem quem viva/pela vida afora/um amor platônico./Receio de ouvir/um não categórico,/ lógico, aristotélico.” Mais um bem intrigante: “Uma grande maioria/vê na imagem/refletida a sua frente,/ator ou atriz convincente./Nem sequer desconfiam/que o espelho,/também mente.” E antes que algum leitor já se apresse em concluir que o Jose Ronaldo é o tempo todo irônico e bem humorado, vai um aí sobre a perda de alguém de quem se gosta: “A notícia de uma morte/até pode parecer/econômica:/- Morreu!/O que acaba sucedendo/após essa expressão lacônica/é que tudo atinge um crescendo,/e uma dimensão nunca vista./Algo assim, como se um precipício/se abrisse bem debaixo/dos nossos pés.” O título desse poema é “Notícia”. A inteligência do poeta foi pegar o contraponto entre a rapidez da morte, o comunicado e tudo que se sucede num espaço de um, dois dias e a longa elaboração do luto em quem fica. Como se a notícia fosse a pedra jogada no lago, e as ondas que ela faz vão se alastrando por muito tempo. Pra falar da vida e da morte, é que existe a poesia.

Do Oiapoque até aqui

Um p, de pássaro, passeia ao longo do verso: “pousa na palma parada”. O p pousa, o p na palma, o p e a palma parados. Agora, o haicai todo: “Andorinha só/pousa na palma parada –/não é verão ainda.” Anibal Beça nos envia essas Folhas da Selva, um ótimo livro com trezentas e sessenta páginas de haicai, lá do Amazonas. Foi publicado numa bonita edição pela editora Valer, de Manaus. O haicai, poema que é visão, olhar, mas também palavra: “Sol quente na areia - /o caracol sai da casa/pra se acasalar”. Sim, para se acasalar, é preciso, paradoxalmente, sair da casa, mesmo que dentro da palavra acasalar tenha a palavra casa. Daí o ditado: quem casa quer casa. Mas Anibal mostra que para casar é preciso sair primeiro da casa, a casa dos pais quem sabe, sair da casca. É preciso sair de si, como o caracol e suas caraminholas. De repente, uma situação inusitada: “Sobe a montanha/com uma pedra na mão/e desce com ela”. A pedra pulando, brincando na mão, volta companheira da árdua viagem. Aliás, de montanha, a pedra entende. Que melhor companhia do que ela? Ou o galo que leva brisa às folhas: “Galo-da-campina -/traz no vento de suas asas/leve brisa às folhas”. Então, o haicai é mais do que palavra e olhar. É ver numa cena uma coisa interessante. Como quem aponta para um amigo e mostra, olha só: “Nas vestes rasgadas/já não espanta os pássaros -/ninho no espantalho.” E não apenas olha só, mas escuta só: “Seis horas da tarde -/sons das cigarras prolongam/os sinos do templo.” Ou ainda, sente só o cheiro: “Manhã de domingo -/cheirando mais que o café/a baunilha em flor.” E pode ainda, depois de passar pela visão, pela audição, pelo olfato, chegar ao paladar: “Goiaba madura/de polpa carnuda e rubra -/banquete de pássaros.” E até ao tato, como esse inadvertido macaco velho que meteu a mão em cumbuca: “Lição esquecida –/ mico-leão mete a mão/no ouriço da castanha.” Estar aqui e agora, com os cinco sentidos ligados e, partir daí, encontrar um sexto sentido: o haicai. Essa experiência é que faz do haicai um tipo especial de poesia. Não é uma poesia para dentro, para as idéias de quem está escrevendo. Mas uma poesia para fora, para captar o que vem de fora. Claro, filtrado e lido por quem está dentro. Isso não é também uma realização exclusiva do haicai. É possível captar instantes e realizá-los em outra forma que não a desse pequeno poema de três versos exportado pelos japoneses. É possível ainda imaginar tudo. Afinal, quem vai provar que o poema não nasceu de uma experiência? Do ponto de vista do leitor, tanto faz. Mas quem quiser se dedicar ao haicai pode encontrar no entorno instantes semi-prontos e transportá-los para o mundo das palavras. Como o fotógrafo que olha o que todo mundo vê, mas acha um ângulo que só encontramos na fotografia que ele tirou. Anibal Beça é um desses poetas-fotógrafos. E como poeta que é, fotografa para além da imagem: “Trilhos de grafite/riscando por ruas tortas-/o bonde e a minha vida”.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Ler Paulo Henriques Brito não dói nada

VI
(Paulo Henriques Brito)

Nada de mergulhos. É na superfície
que o real, minúsculo plâncton, se trai.
Sentidos, sentimentos e outros moluscos

não passam pela finíssima peneira
do funcional. E o sofrimento, ai,
esse refinado pingüim de louça

sobre o que deveria ser, na quiti-
nete do eu, uma austera geladeira...

Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meu
filho. Só o raso é cool. A dor é kitsch.


Muito chique a poesia desse Paulo Henriques Brito. Tem sempre um assunto inusitado guiado por um pensamento original. E tudo em versos, imagens, sons e ritmos equilibrados com maestria. O poema é do livro Macau. Repare que o kitsch já havia aparecido três versos acima na quebra do quiti-nete.

Nei Duclós, ele está no meio de nós

RETÂNGULO
(Nei Duclós)

Tem pessoas que me estreitam
tem pessoas que me largam
tem gente que me violenta
tem gente que me guarda

Mas a maior parte do tempo
estou só, estou sem nada


Contudência. Essa é a marca da poesia de Nei Duclós. Versos como o que perdi não devolvem mas vou buscar com revólver - pra lembrar de outro poema forte dele. Há um ar de quase desespero, mas a lucidez e o espanto tratam de equilibrar o jogo. É um poeta que dá a real. A vida não é nenhuma maravilha, é o que se conclui depois da leitura. Mas a sua poesia é.

A convite de Vinícius de Moraes

POÉTICA (III)
(Vinícius de Moraes)

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus).

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!



Vinícius é talvez o poeta brasileiro que mais abriu as portas da poesia para todo mundo entrar. Entrai, ele fez o convite. E todo mundo entrou. Quem vai querer ficar do lado de fora da casa da poesia? Sua presença no palco, sua voz levando o poema consigo e mostrando para os outros. Gravado no disco, tocando no rádio. Mas também no livro. Como nesse Livro de Sonetos, em que se econtra o poema acima.

Leia Geraldo Carneiro aqui e agora

MANUAL DOS CINQÜENTA
(Geraldo Carneiro)

ao longo desses anos, fez mil planos,
quase todos ainda irrealizados.
perdeu o pai, a mãe; perdeu também
parte da faculdade de enxergar
que sempre pareceu-lhe imprescindível,
por permitir-lhe prescrutar poemas
e contemplar as criaturas belas;
só acumulou espanto e quimeras,
mas continua crédulo e cretino,
e ainda pior: repleto de esperanças.
em suma, continua acreditando
que a realidade é uma alucinação
criada pela falta de utopia.

se um dia for ceifado deste mundo
(como se vê, é um otimista irredutível),
talvez alguém escreva em sua lápide:
a eternidade dura muito pouco:
eu quero ser feliz aqui e agora


Sempre que leio Geraldo Carneiro, saio feliz do poema. Como esse, que está no livro Lira dos Cinqüent'anos. No Manual dos Cinqüenta, o poeta trata dele mesmo em terceira pessoa. Tem, portanto, o distanciamento necessário para falar de si com crítica, ironia e uma certa compaixão. Geraldo diz coisas interessantes, inteligentes e de forma elegante. A seleção de palavras como ceifado, perscrutar conferem ao texto um certo ar de nobreza, mas logo se misturam às palavras de todos os dias e de todos nós.

sábado, 12 de abril de 2008

A verdade de Drummond

VERDADE
(Drummond)

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível antigir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Bom, tudo o que eu disser agora sobre esse poema e sobre Drummond é meia verdade. Sou fã desse livro Corpo em que está o poema acima. Os poemas de Drummond se constroem a partir de uma sacada, de um olhar sobre algo. E ele nos mostra esse olhar como quem conversa na varanda. O ritmo vai tecendo o fluir do pensamento, temperado por pausas e algumas imagens. É um insight, a porta da verdade por onde só passa meia pessoa. Dentro de um tema comum, o de que não existem verdades absolutas, uma imagem incomum.

Os dizeres de Alexandre Brito

dizer
não digo
tudo diz
sem que eu diga
fisgo
quando mudo
musgos de sentido

dizer
não digo
pra que dizer
se tudo já foi dito
na verdade
confio dúvidas
à certeza dos amigos

dizer
não digo
nem que eu queira
não que eu não queira
é que a vida é mui maluca
e se ela não quer
eu não digo
nem com banda de música

Alexandre Britro é um craque da palavra. Entre efeitos de som, de sentid0, de quebra de verso, o poema dele se faz. Repare na repetição do dizer não digo. Ele disse três vezes que não diz. É um contrasenso que só um craque consegue. Repare no refinado deslizamento sonoro do fisgo quando mudo musgos de sentido. Repare na genialidade do confio dúvidas à certeza dos amigos. Essa maravilha está no livro O fundo do ar e outros poemas, editado pela ameopoema.

domingo, 9 de março de 2008

O Seu Ferreira

ISTO E AQUILO
(Ferreira Gullar)

você é seu corpo
sua voz seu osso

você é seu cheiro
e o cheiro do outro

o prazer do beijo
você é seu gozo

o que vai morrer
quando o corpo morra

mas é também aquela
alegria (verso,
melodia)
que, inatingível, adeja
acima
do que a morte beija.


Quando visitamos o poeta na rua Duvivier, no Rio, o porteiro do edifício disse: "ah, querem falar com o seu Ferreira". Gullar, como no poema acima, sempre conseguiu transitar entre a vida e tudo que está dentro dela, como a pele, o osso, a fruta, o inseto, e também a política, a pobreza, o porteiro, e ainda a paisagem. Mas também pelo que não está visível, que não faz parte da História. Essa alegria que a morte não beija.

A linguagem inquieta de Ronald Augusto

5.
(Ronald Augusto)

primeiro
pode ser que um homem se chame pinheiro
pode ser que este homem se mova
entre pinheiros se
comova de vê-los
se é que é possível estar atento
a qualquer coisa que se mova enquanto o vento
no coque dos pinheiros calmo
geme como se
se prestasse a seda sendo
arrastada através de um espinheiro

segundo
que um homem se inscreva ao ouvir
o chamado: pinheiro
não é de arrepiar os cabelos
nem de pelar pinheiros
para que vento não se perceba em parte
alguma e algum vendo-o
ave empalhada em ramo tateante
não se detenha siga
rumo ao monte


O pinheiro, o Pinheiro. E ainda o vento. Esse poema lindo do Ronald tem uma fala com ritmo de vento. Passam e voltam as mesmas palavras, mas cada vez de um jeito, desarrumando alguma coisa, tirando algo do lugar, desalinhando os cabelos, os papéis sobre a mesa. Entre a beleza e a ironia, nessa linha tênue, se faz o discurso poético desse poeta. Como a seda sendo arrastada através de um espinheiro. Um ex-Pinheiro. É do livro No assoalho duro.

Faz tempo que não se fala de Neruda

OUTRO
(Pablo Neruda)

De tanto andar numa região
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.


Guardei o final desse poema para a vida inteira. Li há muitos anos. Reencontrei agora, numa reedição da L&PM. A tradução é da poeta Olga Savary. Acho linda essa reclusão, essa solidão de quem fica à margem. E a imagem final, que dá também nome ao livro: O coração amarelo. De tanto não responder, tenho o coração amarelo. Como os papéis, amarelados pelo tempo. As roupas velhas. Enfim. Esse poema, cheio de imagens como é a poesia de Neruda, fala também de mim. Como disse Quintana, um bom poema não é aquele que a gente lê, mas o que lê a gente.

Os grilos de Quintana

NOTURNO ARRABALEIRO
(Mario Quintana)

Os grilos...os grilos... Meus Deus, se a gente
Pudesse
Puxar
Por uma
Perna
Um só
Grilo,
Se desfiariam todas as estrelas!


Li e reli esse poema do Quintana no seu livro A cor do invisível. Adoro essa imagem de puxar por uma perna um grilo e se desfiarem todas as estrelas. Tem um clima noturno, como o próprio título já aponta. Grilos e céu estrelado. Para mim, na praia. Mas o que mais me dá um clic é a noção de como tudo está ligado. Puxando por uma ponta qualquer o mundo, o resto todo vem junto. Esse poema me reacende sempre a esperança. Desmonta a lógica de causa e efeito. Mostra que, desguiando, pra usar uma palavra de Moreira da Silva, a gente pode desestrutar tudo. O jogo ainda pode ser ganho. E o charme do ritmo perfeito entre pausas, versos de uma, duas palavras, até o verso final que desfia, desguia.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Um poema de Manuel Bandeira

MOMENTO NUM CAFÉ
(Manuel Bandeira)

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Esse é para mim um dos mais bonitos poemas do Manuel. A cena que se descreve aos nossos olhos, o contraponto entre os que saudavam o enterro como um hábito e o que se demora, as frases-versos com o ritmo construído entre o longo e o curto. Uma foto. Uma cena de cinema. E o tema da alma como aquela que só serve para confundir o corpo, como naquele poema do Bandeira em que ele fala sobre o amor e afirma que os corpos se entendem, mas as almas não. Se queres amar, esquece a tua alma, diz o bardo genial. Evoé, Manuel!

Chacal e Valdo Vidrilho

VALDO
(Chacal)

aos poucos o iniciante vai descobrindo as qualidades
do botão: 1ª boa presença no lance. 2ª velocidade
incrível. 3ª a bicicleta correta. 4ª o arremate certeiro.
aos poucos o atacante é convocado nas cobranças de
lateral ou córner, nas faltas mais distantes como nas
frontais à meta. e assim os gols vão se somando e o
botão se torna inegociável.
aos poucos, valdo vidrilho, antigo servidor do tempo,
toma seu devido lugar de superstar no time de
orlando, sob aplauso geral.

Quando Manuel Bandeira lá no início do século XX escreveu "Não quero saber do lirismo que não é libertação", nem sonhava que em 1972 o Chacal iria dizer: "falou!". Tanto a poesia do Bandeira quanto a do Chacal abriram a minha cabeça. Quando li Bandeira, quis ser poeta. Quando li Chacal, vi que havia uma poesia com uma linguagem muito mais próxima da minha geração. Repare no canto do video o charme da enumeração das qualidades do botão usando números. O verso-frase, a narrativa, a descrição, a alegria de escrever e de jogar com o botão e com as palavras. Joguei botão e guardo meu time do Flamengo até hoje. Um tema tão prosaico e quiçá nunca poetado em mais um poema que é pura libertação.

Um poema de Mario Benedetti

AMOR DE TARDE
(Mario Benedetti)

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


Esse poema do Benedetti está no livro Antologia Poética, editado no Brasil pela Record em 1988. A tradução é de Julio Luís Gehlen. Foi extraído de um livro escrito entre 1953 e 1956, Poemas de la oficina, de Benedetti. Tenho lido muito esse poeta que mora aqui ao lado, no Uruguai. Seus livros recentes são excelentes. Leio em espanhol numa edição de suas poesias completas que comprei em Buenos Aires. Ganhei de um amigo uruguaio Canciones del que no canta, o último do Mario até o momento. No poema acima, uma situação banal de trabalho, as horas passando e uma sucessão de ações sem muito sentido ligadas por e, contrastando com a ausência/presença de uma mulher que poderia entrar e livrar esse eu da rotina. Estou quase voltando ao trabalho, depois de alguns dias de férias. Já vivi muito esse poema do Benedetti.